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terça-feira, 27 abril 2021 11:32

Tapioca, Rhale, Caca: um alimento e uma marca “Manhembana”

Tapioca ou Rhale Tapioca ou Rhale Alvo Ofumane

A sua simplicidade e sabor único tornam a tapioca um dos alimentos predilectos dos residentes da província de Inhambane, com particulat destaque para a cidade de Inhambane, chegando a ser a primeira opção em comparação com arroz e farinha de milho. Não é para menos pois apesar de ser um sabor aparentemente indiferente, carrega consigo uma textura que faz toda a diferença na degustação dos alimentos.

Rhale é uma farinha preparada à base de mandioca fresca ralada, que posteriormente é torrada, num processo que iremos explicar nas próximas linhas. Quem viaja conosco nesta jornada para explicar o processo de preparação da tapioca é a dona Margarida. Nascida entre os Machopes, admite que o contacto com a farinha começou na fase jovem, quando esteve entre os Gitongas, pois entre os machopes rhale não era ainda um produto consumido com frequência. Ela fala com alegria do processo de preparação deste alimento, pois a satisfação pelo processo, considerado por si penoso, está em saber que há famílias que fazem questão de ter a tapioca às suas mesas.

Para o início do processo, a nossa entrevistada explica que se deve “tirar a mandioca da terra (qualquer tipo), em quantidade desejada, tendo em conta que a quantidade da mandioca determina a quantidade da tapioca a ser produzida. Depois descasca-se a mandioca com faca ou raspador de mandioca e posteriormente deverá ser lavada. Posto isto, esta deverá ser exposta ao sol para escorrer água por aproximadamente quinze minutos (isto faz-se necessário para que a mandioca não escorregue das mãos no processo de ralagem, que poderá resultar em ferimentos).

Para ralar, usa-se um ralador próprio de mandioca. Neste processo há que ter muito cuidado para não ralar os dedos, o que é muito comum na actividade. No entanto, “isso não lhe pode desanimar ou fazer desistir, pois faz parte do processo”, menciona a nossa entrevistada. Depois de ralar a mandioca toda, esta deve ser colocada em sacos limpos, que posteriormente devem ser amarrados de modo a espremer toda a água da massa da mandioca ralada, num período de aproximadamente seis dias. Para isso, reforça-se com pedras e outros objectos pesados. Importa referir que o saco com a mandioca ralada deve estar por cima de arbustos, para que não suje.

Passados estes seis dias, já se pode torrar. “A união faz a força”, diz o ditado. E isto é especialmente verdade no contexto do trabalho; para torrar farinha não seria diferente. “Quanto mais pessoas houver melhor, pois evita-se extremos níveis de cansaço ao qual os participantes do processo estão sujeitos”, remata a dona Margarida. Para o efeito, tira-se a massa da mandioca ralada do saco e desfaz-se por forma a ficar separada. Neste processo, a dona Margarida refere que se “pode acrescentar farinha de mandioca seca pilada ao conteúdo, caso esta não tenha desidratado o suficiente durante os seis dias, pois facilita no processo da torragem”.

Para torrar, portanto, deve-se fazer fogo numa cova rectangular de aproximadamente um metro e meio de comprimento e meio metro de largura, com uma profundidade de até meio metro. Colaca-se a lenha no interior, de preferência grossa, para que dure mais. Importa referir que o temanho da cova deve ser proporcional ao do tabuleiro, ou seja, quanto maior o tabuleiro, maior a cova. Com fogo pronto, coloca-se o tabuleiro limpo para aquecer. Põe-se uma quantidade de aproximadamente uma peneira da massa de mandioca ralada no tabuleiro (mais uma vez, a quantidade da massa vai depender do tamanho do tabuleiro). Deixa-se o conteúdo aquecer. Quando isto acontecer poder-se-á começar a mexer de forma alternada, com um objecto de alumínio pequeno, de formato rectangular.

O processo deve ser feito obedecendo o princípio de “Uns minutos mexendo, e outros não, para que o conteúdo ganhe quentura e comece o processo de cozedura”. Quando se dá a pausa, Margarida acrescenta que se pode seguir desfazendo a pequenas bolhas que se vão formando devido ao aquecimento. Em trinta minutos já é tempo para dizer que a massa da mandioca ralada já virou rhale. No entanto, ainda não se pode tirar ainda do fogo, pois precisa secar. Neste caso são necessários aproximadamente vinte minutos, dependendo da intensidade do fogo, para que a tapioca seque.

“É importante realçar que o fogo deve estar mais intenso no começo do processo, pois vai permitir que a farinha coza como deve ser e, portanto, fique bonita”. Quando se aproxima do fim, sobretudo quando se estiver no processo de secagem, deve-se abrandar o fogo, para que não queime ou torre muito. Para testar a secagem pega-se um pouco do conteúdo com a mão e se tenta fazer uma espécie de bola; se depois de aberta a mão a farinha se espalhar por completo, e não ficar nas mãos, significa que já está bem seca. Assim, já pode ser tirada do fogo. Esta deverá ser levada e estendida num saco limpo e espalhada para não mudar de cor. A boa secura é especialmente importante para garantir uma conservação mais duradoura. A farinha tapioca pode ser conservada em sacos, baldes ou bidãos , desde que estejam limpos e secos. Quando bem seca, pode durar até mais de um ano.

Um alimento, várias opções
A diversidade com que se consome a rhale varia de pessoa para pessoa ou de região em região. Há quem prefira consumir de forma simples, há quem adicone à comida, ou até mesmo transformá-la na mistura com outros alimentos.

Armando Uachiço é natural de Inhambane. De vinte e quatro anos, conhece rhale desde a tenra idade, pois este é um alimento que faz parte das refeições da família. A sua forma de consumo preferida é tapioca com açúcar e água quente, pois refere que “o sabor é outro, é diferente.”

Entretanto, ele também consome com arroz e caril, sendo que a mistura é feita por cima do arroz, por baixo do caril, de preferência caril a amendoim e coco. “Quando misturo farinha à comida percebo que estou a comer pois tenho de mastigar bem, e isso é prazeroso”.

Gosta também de tomar com chá, pois refere que “ajuda na satisfação rápida”. Armando acrescenta que consome farinha desque que come comida pois “É indispensável”. Enfim… É um mar de opções que este alimento oferece para os seus consumidores. Só para constar, com a tapioca também se pode fazer molina de castanha, amendoim, ou mesmo de coco. Pode-se substituir o arroz ou xima pela farinha, como é o caso preferencial de alguns naturais.

Escrito por Vanila Amadeu para Tsevele

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