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terça-feira, 27 julho 2021 12:10

O desenvolvimento infantil na perspectiva do conhecimento local

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As sociedades Africanas sempre tiveram formas próprias de interpretação dos fenómenos naturais, um conhecimento que deriva de cada grupo etno-linguístico. Embora marginalizado e até diabolizado por vários séculos, a favor de abordagens científicas convencionais eurocentristas ou ocidentais, este conhecimento ainda prevalece em várias comunidades Moçambicanas.

O nascimento de uma criança é sempre um momento de júbilo na família e na comunidade. Por esta razão, os anciãos são encarregues pela “avaliação” e acompanhamento contínuo do recém-nascido, de modo a identificar e “corrigir” eventuais problemas que possam prejudicar o desenvolvimento são e normal do bebé.

Os estágios de desenvolvimento da criança são minuciosamente observados e acompanhados. Numa primeira fase, as atenções ficam viradas aos primeiros sinais de desenvolvimento como deitar-se de barriga, sentar-se, gatinhar, levantar, até aos primeiros passos.

Paralelamente, atenta-se aos primeiros sinais de fala. Por exemplo, a crença prevalecente é de que a criança deve primeiro pronunciar “dadada...”, interpretado como significando "papá" ou pai. Caso a criança pronuncie primeiro “mama” ou “mamã", considera-se anomalia, que deve ser resolvida imediatamente.

Outro sinal de desenvolvimento a que se presta especial atenção é a dentição. Esta também possui sua regra conhecida pelos anciãos. Geralmente, a dentição deve começar com o aparecimento dos dentes de baixo. Segundo José Boane, ancião localmente chamado Nhamatsengo, quando a dentição começa pela parte de cima simboliza uma maldição que deve ser tratada. O ancião explica, porém, que a dentição que começa por cima, também designada wuxaki, acontece espontaneamente e não é consequência de algo que os pais do bebê tenham feito.

Segundo explica o Sr. Nhamatsengo, wuxaki é um problema gravíssimo que caso seja ignorado, poderá afectar a vida adulta do indivíduo. Igualmente a vida do cônjuge deste será directamente influenciada.

Acredita-se que o indivíduo não tratado, até pode se casar, mas sempre "mata o cônjuge". Sempre que se casa, o seu cônjuge perde a vida. Outra forma de manifestação do problema de Wuxaki não tratado é a perda dos descendentes do indivíduo.

Felizmente, conta Nhamatsengo, para estas e outras “anomalias” no desenvolvimento do bebê, existe tratamento. A nossa fonte explicou que uma vez detectada a dentição por cima, procura-se logo uma pessoa que saiba tratar. São geralmente os indivíduos mais velhos da aldeia ou da família ou outros conhecedores da medicina tradicional, de reconhecido mérito.

O remédio é administrado ao indivíduo de acordo com a idade (mesmo que o problema seja descoberto na fase adulta do indivíduo).

Escrito por Amadeu Quehá para Tsevele

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