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terça-feira, 19 outubro 2021 19:28

SURA: suave, refrescante e directamente do “Céu”

Sura. Sura.

A província de Inhambane possui palmares que se estendem de Zandamela a Save, seus limites a sul e norte respectivamente. Localizada a sul de Moçambique, é a província com o segundo maior coqueiral ou cocal do país, perdendo apenas para a província da Zambézia, no centro de Moçambique. O coqueiro, uma das suas principais plantas, tem interminável utilidade. Nela aproveitam-se as raízes para tratamento de dor de dente e não só; o caule e as folhas para extrair material de construção; para além do próprio fruto, o coco, que é bastante usado na culinária de Inhambane e em outras províncias do país. A sua utilidade não termina por aí.

Muito mais se extrai do coqueiro. No texto de hoje, trazemos até si a SURA, uma bebida que se extrai nervura da copa do coqueiro ou os “ramos”, em algumas regiões designada “macote ou macuti”.

Processo de extração de sura

Para começar, corta-se a espata pelo caule (o “ramo” que brota as flores que depois se transformam em coco) , removendo a parte que segura os cocos. Note que esta deve ser ainda fresca, tenra, ainda no estágio de crescimento. A parte que fica no coqueiro é que serve para o processo. Esta é cortada nas extremidades de modo a que fique uma ponta dobrável.

Passados alguns dias, a carapaça que a envolve e amarra-se com palha outra corda, de modo que esteja bem firme. Por alguns dias vai-se monitorando, até apresentar os primeiros pingos. Quando esta começa a libertar os primeiros pingos do líquido esbranquiçado, amarra-se um recipiente por baixo da espata, que pode ser uma cabaça ou uma garrafa plástica cortada. Para evitar a entrada de abelhas ou sujidade (o que poderá comprometer o sabor e a qualidade da bebida) o recipiente é envolvido por uma espécie de rede, retirada do próprio coqueiro.

Este processo é repetido até acabar a espata, ou quando a sura já não mais pingar.

Quando começar a cortar sura no coqueiro?

Normalmente, a quantidade da sura jorrando pela espata vai aumentando a cada dia, e, dependendo da quantidade produzida, esta pode ser retirada entre uma a três vezes ao dia, explica João Agostinho, um kemi (designação local para pessoa que corta sura) desde 2015. Sempre depois de retirar a sura do recipiente, corta-se uma camada muito fina da espata, de modo a continuar a jorrar, continuou João, o qual acrescentou que no inverno, em contrapartida, abundância no verão.

É possível tirar a sura em coqueiros de qualquer idade, desde que já tenham começado a produzir coco, afinal é das espatas que esta é extraída. É possível extrair sura de qualquer "vassoura"; deve apenas certificar-se de verificar a idade. Se passar da fase em que ainda esteja tenra, já não é útil para cortar a sura.

Tipos de sura

Existe um tipo de sura, mas dois sabores: o amargo e o doce. João Agostinho refere que quando acabada de ser extraída, ela é tipicamente doce, momento em que é muito apreciada por quem não consome álcool. Depois de algum tempo a fermentar, esta torna-se amarga, tornando-se numa das bebidas mais exóticas e afrodisíacas produzidas em Moçambique.

Consumo

A sura pode ser usada para o consumo como bebida, em festas, convívios, bem como para a produção de bolos de sura.

Quando usada para o consumo como bebida, se sobrar, esta pode ser conservada para o dia seguinte e, para se voltar a consumir, basta acrescentar um pouco da sura doce, refere a Sra. Cândida Venâncio. Isto pode se repetir por quantas vezes forem necessárias, certo de que o seu sabor não vai alterar.

Este sumo natural pode também ser usado para fazer vinagre. Para tal coa-se a sura num bidão, posto isto tapa-se o mesmo com uma rolha de massaroca e cafurro previamente limpos (estes devem permitir uma ligeira entrada de ar), e enterra-se a uma profundidade suficiente para cobrir bem o recipiente. O bidão deve ficar por até três anos enterrado. Depois tira-se, coa-se novamente o conteúdo num outro bidão previamente limpo, tapa-se e enterra-se novamente, mas desta vez por um ano. Passado este período já está. Já é vinagre e pode ser consumido para temperar carnes, saladas, ou outro tipo de alimento, dependendo da preferência de cada um. A Sra. Cândida indica que "vinagre feito a base de sura é muito bom, é melhor até que o vinagre industrializado".

Escrito por Vanila Amadeu para  Tsevele

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