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terça-feira, 26 outubro 2021 19:29

O Grande Hotel-Beira: de maior hotel de África ao maior centro de imundice  

Grande Hotel antes e agora Grande Hotel antes e agora

O Grande Hotel foi um hotel de luxo localizado na cidade da Beira, segunda maior cidade de Moçambique, na província de Sofala. O mesmo localiza-se na Avenida Mateus Sansão Muthemba a quinze minutos do centro da cidade. A festa da sua inauguração foi realizada no ano de 1954. Esteve funcional entre os anos de 1955 e 1963. Após esse período, continuou sendo utilizado durante a década de 1960 como um centro de conferências.

Entre 1952 e 1963 nunca chegou a ter clientela suficiente para as suas ambições de lucro, ainda mais com uma guerra colonial que debilitou o sector do turismo. Acrescida à má gestão, o hotel acabou por ser desactivado, mas a piscina e a sala de conferências continuaram activas. O último grande evento que ali foi realizado foi uma festa de fim do ano de 1980 para 1981, depois foi-se transformando gradualmente em ruínas.

uma vez considerado o maior hotel da África, hoje não recebe mais hóspedes, mas tem habitantes. No auge do seu funcionamento o local trazia o título de orgulho para a África; durante a Guerra civil em Moçambique (1977-1992), o Grande Hotel tornou-se um campo de refugiados.

Inicialmente, os militares, membros da polícia e do exército, começaram a usar o terceiro andar e seus quarteirões para apoio logístico da guerra, depois de 1981, a população em geral foi ocupando o lugar por vários motivos, e este tornou-se num campo de refugiados.

O grande Hotel está hoje sob uma área abandonada, um terreno ocupado por mato e capim, onde as casas de famílias compõem a vizinhança.

A vida no Grande Hotel hoje

Segundo Adalberto Boaventura, funcionário da Direção Provincial da Cultura e Turismo em Sofala, actualmente o Grande Hotel está ocupado por cerca de 300 famílias que vivem em condições precárias.  O nosso entrevistado continuou ainda dizendo que alguns dos residentes que lá vivem e que já se encotram em melhores condições de vida mudaram-se daquele lugar, mas alugam as “suas casas” para outros inquilinos que pretendem residir naquele lugar por falta de melhores condições de vida

Em uma conversa com duas residentes do Grande Hotel, a dona Maria Fernando João e a Dona Lúcia Constatino Meque, elas referem que desde que o hotel se transformou em ruínas, sempre existiu um secretário da unidade, que já não se encontra em vida e que já fora substituído por uma nova secretária conhecida por Dona Beatriz.

Como qualquer casa ocupada tem suas regras, assim é com o Grande Hotel hoje. A função da secretária da unidade é de garantir boa convivência entre os inquilinos, resolver problemas da unidade, como por exemplo: quem tem direito a residência em detrimento do outro (uma mulher com crianças tem sempre vantagem), problemas de vizinhos que atiram água suja para a varanda de um outro, etc.

Durante a conversa com a dona Maria, ela revelou que chegou ao Grande Hotel no ano de 1997, junto com seu esposo que era ambulante na altura. Eles mudaram-se para a unidade devido as suas condições de vida, pois já não conseguiam dinheiro para o aluguer da casa em que residiam.

O primeiro lugar que lhe foi oferecido foi um espaço no corredor, porque o hotel já não dispunha de mais quartos para morar. Ela, junto com o seu marido, viveu no corredor por cerca de quatro anos até que um dos inquilinos que havia migrado para a cidade de Quelimane perde a vida. Assim, o espaço do antigo residente foi-lhes cedido.

A dona Maria acrescenta ainda que o famoso Grande Hotel não dispõe de casas de banhos, uma vez que as que existiam servem de morada para os inquilinos até aos dias de hoje. Assim, para fazer as suas necessidades maiores ou menores, eles dirigem-se à praia ou até mesmo defecam nos plásticos e atiram para baixo, tornando a vida complicada para os que vivem ao andar de baixo.

Os banhos, muitas vezes acontecem em “esquinas” ou mesmo à vista dos vizinhos, porque não se tem opção. “Sigo aguentando a vida aqui devido a falta de recursos para procurar um lugar melhor para viver, uma vez que no Grande Hotel, eu e meu esposo, não temos de pagar nenhuma renda, o espaço é gratuito” explicou dona Maria. Acrescentou ainda que as autoridades municipais têm se feito ao local para ver como as pessoas vivem, para escutar os seus problemas, mas a situação permanece a mesma.

Os quartos são polivalentes: dividem-se as privacidades com leves cortinas, levanta-se o colchão para surgir uma sala ou cozinha. Há quem viva na cave, nas antigas câmaras frigoríficas, lavandaria e elevador. Pelo que se vê, qualquer canto tem uma utilidade. Dentro dos grandes salões definem-se habitações improvisadas, nos longos corredores montam-se bancas.

Viver ou morrer no hotel

Existem muitas histórias de acidentes dentro grande Hotel. Gente alcoolizada a fugir ao desalento que acaba por cair de alguma escada ou janela sem proteção. Um corpo que aparece a flutuar na piscina, gémeos que morreram no mesmo sítio quando um pedaço de terraço que caiu. Enfim…várias histórias de vida dentro daquelas ruínas do Grande Hotel.

O que antes era símbolo de orgulho pra África, hoje tornou-se em local de refúgio para quem, por alguma razão, não tem onde reclinar a cabeça para descansar.

Escrito por Margarida Amadeu para Tsevele

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