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terça-feira, 16 novembro 2021 18:59

De Bangwe para Beira: Conheça a história da segunda maior cidade de Moçambique

Cidade da Beira Cidade da Beira

Limitada a norte e oeste pelo distrito de Dondo,  a leste pelo  Oceano Índico, e a sul pelo  distrito do Búzi, a Beira é caracterizada por um clima tropical húmido chuvoso de savana, com temperaturas e humidades elevadas no verão. A sua história remonta há séculos, antes mesmo da presença colonial em Moçambique.

Em uma entrevista com o Chefe do Departamento de Monumentos Históricos da Direção Provincial da Cultura e Turismo, Adalberto Boaventura, ele conta que durante os anos que antecederam a chegada dos europeus, a região que hoje se chama Beira era um local designado Bangwe,  junto a foz do rio Aruangwa. Este era habitado por populações nativas, os vabangwe ou (bangwes), comunidade de etnia Cena e Ndau essencialmente de pescadores que viviam em palhotas que se erguiam em pequenas clareiras nos terrenos mais elevados abertos dentro de um denso matagal que caracterizava a vegetação da região, em que se ocultavam as mais diversas espécies de animais selvagens.

A região estava sob domínio do Reino Sedanda, vássalo do império do Mwenemutapa, a quem os bangwes (povo cena e ndau) tinham a obrigação de pagar tributos regulares.

 Na metade do século XIX, devido à invasão Nguni cuja marcha partiu da África do Sul, o Império Mwenemutapa desagregou-se, tendo-se formado, por conseguinte, o império de Gaza, que se estendia do sul de Moçambique, baía de Maputo ao vale do Zambeze. Nisto, a região passou para o domínio de Muzila e depois, do seu filho Nngugunhana, que heroicamente nunca se conformou com a presença europeia nas terras.

Este terror para os portugueses só abrandou quando Ngungunhana foi preso por Mouzinho Albuquerque, tendo sido posteriormente deportado para os Açores em 1897. Foi neste Estado que pela primeira vez o Português Joaquim  Carlos Andrade viu pela primeira vez a região do Bangwe na altura em que se propôs a estudar a navegabilidade do rio Aruangwa, atual rio Pungwé. Entretanto uma povoação estruturada nesta região desenvolve-se depois da fixação do comando militar em 1887. Pode-se dizer por isso que a povoação do Bangwe, também designada por Aruangwa é o antecessor da atual cidade da Beira, explica o Sr. Adalberto.

 

O camando militar do Arugwa

Como muitas outras cidades do continente africano, parte da história da a cidade da Beira nasce no período dos descobrimentos, ou seja, das primeiras incursões dos explanadores europeus. A primeira presença dos portugueses na província de Sofala foi quando Pedro Alvares Cabral regressava do oriente, já no Oceano Índico, mandou um dos seus navios, capitaneado por Sancho de Toar, para descobrir o famoso porto de Sofala no ano de 1400, e em 1502 Vasco da Gama também passou pelo porto de Sofala.

Com a construção da fortaleza de S. Caetano de Sofala e da feitoria, Sofala tornou-se no maior Império da África oriental, a fortaleza protegia mais de seiscentos europeus, formando uma povoação de portugueses, mestiços e gente da terra. À cerca de 400 metros, crescia outra povoação formada por mouros, que se empregavam  nos serviços de fortaleza e no comércio do ouro, marfim, formando-se a vila que era capital do distrito de Sofala

Volvidos alguns anos, Portugal entra em guerra com toda costa oriental e é sujeito a coroa Espanhola, o que contribuiu para a redução do movimento comercial em Sofala e para um total esquecimento das infra-estruturas ali existentes, motivando a lenta destruição do porto e da fortaleza pela erosão provocada pelas águas do rio Carona, por volta de 1862.  Esta situação obrigou o governo a transferir a capital do distrito de Sofala para a Ilha de Chiloane em 1865. Por decreto de 4 de julho de 1884, é prevista a fundação dum comando militar na região do Aruangwa, na margem direita do rio pungwé.

 O comando foi criado pela portaria provincial de 22 de julho de 1887, na margem esquerda e não na direita do pungwé, por razões geográficas, políticas e comercias. A instalação do comando tinha como fim manter o prestígio e respeito de soberania portuguesa, já que não havia na região quem confirmasse a efectiva fixação dos portugueses. Entretanto, a realização daquele projecto só foi possível quando se provou existir na foz do pungwé, um porto superior ao de Quelimane e Inhambane, ainda que não se visse nas margens do referido rio um terreno apropriado para a instalação do comando, visto ser todo alagado no tempo das águas  altas. Este factor não impediu a instalação do comando no sítio indicado.

O comando militar do Aruangwa foi inaugurado em 20 de Agosto de 1887, pelo então governador de Manica e Sofala, Tenente-coronel Jorge Pinto de Morais Sarmento, na presença de várias personalidades políticas, militares, bem como do Sr. João Eduardo Coelho Barata, proprietário do prazo de Cheringoma.

Na altura, o comando era composto por instalações provisórias , constituindo numa ampla palhota de caniço e telhado de palha, tendo em volta uma vala profunda de defesa caso os guerrilheiros de Nngungunhana, que frequentemente atacavam o camando, o assaltassem , uma prancha lançada sobre o fosso e retirada ao anoitecer, servia de porte para o exterior.

Da povoação do Aruangwa à cidade da Beira

 A instalação do camando militar do Aruagwa foi decisiva para o progressivo crescimento da povoação. Com efeito, o empreendimento influenciou o aumento do movimento portuário a correspondente fixação de estrangeiros, essencialmente portugueses.

Este acontecimento foi também importante para a prosperidade, regeneração e segurança da comunidade portuguesa, facto que coincidiu com o nascimento do príncipe D. Luis Filipe em Portugal, em 21 de Marco de 1887 e que ficou popularmente conhecido por príncipe da Beira, possivelmente porque  os seus parentes fossem originários de alguma das Beiras (litoral, Alta, Baixa) em Portugal.

Ora, o primeiro comandante do comando de Aruangwa, o Tenente Luís Inácio sugeriu a ideia de atribuir o nome do príncipe da Beira à sede do comando que ia criar em Moçambique, quando desembarcou em Lisboa, e viu as comemorações do nascimento do príncipe da Beira, D. Luís Filipe. Com efeito, a designação de “ príncipe da Beira“ nunca chegou a ser atribuída ao comando, mas sim a povoação que dele nasceu.

O nome Beira apareceu pela primeira vez e oficialmente num relatório de Luís Inácio, transcrito no boletim oficial nº 43 de 22 de Outubro de 1887, pois, o mesmo influenciou para que a cidade fosse chamada por esse nome. Em princípios de 1892 a sede do distrito de Sofala, justificando o progresso da Beira, foi transferido provisoriamente para a localidade do Aruangwa, tendo em seguida, as forças do comando Militar passado para Chiloane.

No ano de 1892 a povoação da Beira fixava-se apenas sobre uma insignificante porção de areia elevada entre o Pungwé e o Chiveve. Tendo completado 20 anos de idade, o príncipe D. Luís Filipe visita Moçambique, desembarcando na Beira a 4 de Agosto de 1907, altura em que se projectava a promoção da povoação da Beira ao escalão da cidade, atendendo-se ao desenvolvimento da própria povoação, do seu porto e do tráfego do caminho de ferro.

Este facto foi enquadrado no programa de comemorações da visita do príncipe, a povoação da Beira foi elevada à cidade com a denominação de cidade da Beira, decretada em 29 de Junho daquele ano(1907), pelo Ministro e Secretário de Estado dos negócios da marinha e ultramar. Houve muita hesitação na escolha do local para a escolha desta cidade, pois uns apontavam a margem direita do Chiveve (Maquinino), com receio de corrosão pelas águas do mar na margem esquerda (baixa- Chaimite), enquanto outros  preferiam o local ocupado pela vila do Buzi, por estar livre das corrosões do mar; e porque oferecia facilidades na ligação para o interior.

Ficou então edificada a capital de Manica e Sofala, na foz do Pungwé onde se projectava a construção de um ponto terminal de uma linha dos caminhos de ferro na larga Baía de Masanzane.

 

O surgimento de infra-estruturas e urbanização

 Justificando o desenvolvimento do movimento portuário da Beira devido a sua localização geográfica favorável para os países do interland, especialmente a Rodésia do Sul, actual  Zimbawé, empreenderam-se diversas obras de melhoramento e crescimento da nascente cidade. Estas obras compreendiam aterros do Chiveve, arruamentos, muralha de defesa da praia, edifícios públicos, entre outras.

Os primeiros passos para a concretização destes objectivos foram dados nos meados de 1892, com a transferência da sede do distrito de Sofala de Chiloane para Beira e da força militar para Chiloane .

No mesmo ano foi transferida a sede da comissão urbana de Sofala para Beira. Em 1898 se transformara em comissão sanitária que, tendo sido modificada, deu lugar à Direção dos Serviços Urbanos. Em 1914 a comissão Sanitária seria substituída pela comissão de melhoramentos.

Contudo, como muitas cidades africanas que nasceram sob a ocupação colonial, a cidade da Beira nasceu de pequenas barracas de madeira e zinco sem estética urbanística. As obras do aterro do Chiveve tiveram início em 1894 pela companhia Sund Est African, bem como a defesa da Praia feita de estacaria que dois anos depois 1896, foi substituída por uma muralha de blocos  de Betão. Já em 1897 a muralha foi prolongada em grande extensão do Chiveve e a mesma foi aterrada sendo que posteriormente abriram-se algumas pequenas ruas.  

Em 1897 fez-se também o rasgo do bairo Pontagêa e em 1898 foram construídas casas no novo bairro, simultaneamente foram aterradas antigas ruas abertas no lado do pântano do Chiveve e aumentada a muralha de defesa da praia.

Desde o nascimento da Beira, a iluminação nas residências era feita por candeeiros a petróleo e só em 1916 foi introduzida a iluminação elétrica. Como Beira era o principal ponto de trânsito ferro-portuário para o interland, deu-se início em 1892, a construção da linha férrea de via estreita que em fins de 1893 apresentava mais de 100 quilômetros. Dois anos mais tarde, atingia 300 km, pondo Chimoio em comunicação com o porto da Beira e, em 1897, chegava a Massequesse (vila de Manica), finalmente, em 1901, inaugurava-se a linha férrea de via larga, que ligava a Beira a Rodésia do Sul (Zimbabwe).

A primeira vez que apareceram carros ou veículos automóveis na Beira foi em 1922, sendo os primeiros proprietários o governador da companhia de Moçambique, comerciante Abdul Amade e o empresário José Fernandes Caeiro, que se diz ter sido o proprietário da Casa Portugal.

Devido ao crescimento constante da cidade, houve a preocupação de instalar um órgão administrativo capaz de planificar e responder pelo desenvolvimento e o destino da cidade.

 

Povoamento urbano e estratificação social.

À semelhança de muitas cidades do mundo, a cidade da Beira foi sempre cosmopolita, onde os principais grupos populacionais, do ponto de vista financeiro, foram constituídos por portugueses, ingleses, indianos e chineses. O povoamento da cidade era feito com base em aglomerados da mesma origem de modo a viver, ocupando determinadas áreas. Outro motivo que fazia com que existisse essa separação era a posição económica, ou seja, as pessoas do mesmo nível económico tinham a tendência de residir na mesma área.

Assim, os funcionários superiores, engenheiros e gerentes comerciais viviam na Ponta-Gêa, e a classe média vivia no Esturro e Matacuane; o Maquinino era habitado  maioritariamente por operários, enquanto os chineses e indianos por regra viviam nos respectivos estabelecimentos comerciais na Baixa da cidade. Os bairros do Esturo, Manga e parte da Munhava surgiram com o desenvolvimento da indústria. Atualmente, o bairro da Munhava é o mais populoso da cidade da Beira com grupos sociais heterogéneos, e foi a partir deste bairro que surgiram muitos outros como o Vaz, Massamba, Muchatazina e Chota.

A densidade populacional destes bairros era determinada pela tendência de as pessoas quererem manter perto os seus postos de trabalho, superando o problema de transporte. O bairro de Shipangara, o mais antigo da cidade, foi o que deu origem ao Bairro de Nyamudima. Para além destes, existem outros bairros que foram surgindo devido a saturação populacional dos primeiros, como por exemplo: o bairro de Macurrungo, Estoril, Macuti, Inhamizua e Cerâmica.

 

Estabelecimentos comerciais.

O nosso entrevistado prosseguiu dizendo que as viagens de exploração não tinham só interesses administrativos, mas também e fundamentalmente económicos , o que pressupõe o comércio, contudo foram surgindo locais para a compra e venda de artigos, alimentos e instituições bancárias. Várias outras construções foram surgindo, como por exemplo o mercado Gorjão em 1899, que serviu para substituir um outro em barracões de madeira e zinco que estava instalado no pátio em frente ao edifício da Direção Provincial do Trabalho, até aos anos 1920. O sector comercial cresceu de tal forma que em 1900 existiam na Beira 8 padarias, 4 talhos, 26 mercearias e mais de 19 estabelecimentos de venda geral.

Para além de estabelecimentos comerciais foram surgindo Clubes que eram frequentados por determinados grupos sociais e étnicos. Eram nesses clubes onde se encontravam para os seus tradicionais convívios, jogos, gastronomia, cerimónias, entre outras actividades. A cidade teve algumas casas de cinema que agora transformaram-se em ruínas e outras mereceram outras formas de aproveitamento. A casa de cinema que se supõe ser a mais antiga era o “Cinema Olympia“, que depois viria a ser transferido para o local onde se encontra hoje “Olympia“ onde viria a sofrer muitas alterações  até apresentar o aspecto actual.

Nos dias de hoje, a cidade da Beira é considerada uma cidade cosmopolitana, por ter cidadãos de diversas partes do país, assim como do mundo, por exemplo: portugueses, franceses, turcos, alemães, americanos, etc.

A Cidade da Beira é a segunda maior cidade de Moçambique, que por sua vez também é designada a capital do centro. De acordo com o censo do ano 2017, esta possui uma população estimada em cerca de 533.825 habitantes. Atualmente, a cidade encontra-se modernizada, embora ainda tenha algumas áreas degradadas e problemáticas, e a mesma já foi consagrada como um património histórico contando agora com 114 anos.

 

Escrito por Margarida Amadeu para Tsevele

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