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terça-feira, 09 novembro 2021 22:51

Lilhelo, Cisero, Ethokwa ou Peneira: Um utensílio, várias utilidades e significados

Peneira Peneira

Presente em todos os lares Moçambicanos, a peneira, designada lilhelo em língua Citswa, cisero em língua Cisena e ethokwa em língua Emakhwa, é um utensílio de uso doméstico, de fabrico artesanal, feito com base em palha de palmeira leque, uma planta muito abundante em várias regiões do país. O material usado na produção da peneira depende de região em região, de acordo com a matéria-prima abundante, ou da preferência do fabricante.

De formato circular com uma superfície côncava, o utensílio é primariamente usado para peneirar, ou seja, para separar as partículas finas das grossas, de produtos alimentares como amendoim, milho, entre outros, variando de região para região.

Para além de peneirar alimentos, este utensílio é também usado para vários fins. Por exemplo, em actos cerimoniais devoção de espíritos dos antepassados, a peneira transporta oferendas como frutas, notas ou moedas de dinheiro, entre outros produtos, a serem entregues como sacrifício aos ancestrais.

Em algumas residências, a peneira é usada para decoração, algumas das quais com frases educativas ou ditados populares, numa espécie de mural de “desabafos”.

Largamente utilizada pelas comunidades moçambicanas, por toda a extensão do território do país, a peneira simboliza uma das mais antigas identidades dos povos locais, no que concerne a instrumentos auxiliares durante a preparação dos alimentos, sendo impossível até hoje, substituir a peneira por um utensílio convencional, embora já haja no mercado objectos para esse fim.

Tivemos esta explicação, da mamã Fátima Julai, de cinquenta e dois anos de idade, cuja trajectória de vida é acompanhada por este meio indispensável na preparação dos alimentos. Seu cônjuge Américo Cupeu, de sessenta e oito anos de idade, é fabricante de Lilhelo desde que se conheceram há sensivelmente quatro décadas, na populosa região de Chirruala, em Vilankulo.

Com os dedos visivelmente enrugados pelo esforço quase tecnicista de trabalhar a palha, Américo Cupeu, vê no artesanato a sua actividade principal através da qual garante o sustento da sua família, embora a agricultura seja também outra actividade marcante no seu dia-a-dia.

Todas as manhãs, Américo Cupeu perde-se pela mata adentro, a fim de "cortar mahanga" ou palha, matéria-prima base para o fabrico do utensílio doméstico peneira. Assim que corta os "mixumbo" (palha mais nova), leva à casa onde sobre um tecto de estacas, põe a secar tantos dias até adquirir a qualidade desejada.

O lugar de secagem da palha é protegido contra a água da chuva ou cacimba nocturna. Enquanto a palha seca, Américo volta à mata, em busca de tsotsotwani, uma planta cuja raiz depois de ser trabalhada, toma formato de uma ligeira tábua ou régua (a raiz de tsotsotwani, pode ser substituída pela raiz da mafureira). É esta régua que é encurvada até tomar a forma circular que determina o tamanho da peneira.

Para conferir um mosaico comportando várias cores, o artesão, produz previamente diferentes tintas caseiras com base nas diferentes raízes. Na produção da tinta, Antônio esmaga as raízes que depois são deixadas em pequenos frascos misturadas com pequenas quantidades de água.

Seguidamente mergulha a palha necessária para a decoração até a mesma adquirir a cor da referida tinta.

Depois de a palha secar, o artesão corta-a, dividindo-a pelo meio. A parte central da palha, chamada Lilhamalala, (mais dura), é alinhada de uma forma sequenciada para o primeiro passo, que é a construção do tapete.

A palha mais leve é que aos pares vai tecendo entrelaçando de forma perpendicular a palha dura, anteriormente colocada no primeiro passo. Tece o tapete até às dimensões necessárias.

Posteriormente, dobra o tapete fazendo uma ligeira concavidade e juntando-a na sua extremidade à tsanzalati ou régua em formato de círculo, delimita a peneira com ajuda de uma corda. E está pronta.

O fabrico da peneira dura no mínimo dois dias, segundo a experiência de Américo Cupeu.

Escrito por Amadeu Quehá para Tsevele

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