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terça-feira, 23 novembro 2021 20:47

Lunga e a sua bravura contra a dominação Colonial

Lunga-Mossuril Lunga-Mossuril

Lunga é um posto administrativo sob a jurisdição do distrito de Mossuril, na provincia de Nampula. Encontra-se situado a sul deste distrito, sendo limitado a norte pelo rio Monapo, que o separa do posto administrativo do Lumbo; a leste pelo Oceano Indico; a sul pelo distrito de Mogingual; e a oeste pelo posto administrativo de Quixaxe (Mogingual) e pelo Distrito de Monapo.

Características da População de Ttokhoma

A zona de Lunga é também conhecida pelo nome de “Ttokhoma”, originário de uma área existente a sudoeste de Quivulane, cujos naturais, outrora foram muito famosos pela sua exigência de clareza no falar. Se, por exemplo, alguém pusesse nas brasas um peixe (ou um pedaço de carne), para assar, e dissesse a um companheiro que ficasse a olhá-lo (vê-lo), por ele ausentar um pouco, esse companheiro ficava, na verdade , a olhar para o que estivesse nas brasas, mesmo que se queimasse. Voltando o dono e lhe perguntasse por que o havia deixado queimar, em resposta, dizia: - Não me disse para ficar a olhá-lo?...Então, não me encontrou olhando para o que está na brasa?...por acaso, tinha me dito o que mais fazer, a não ser apenas a olhar?

Se lhe dissesse para virar com um pau o que se estivesse assando ao lume, ele o virava com pau até o pitéu reduzir- se a cinzas, pois não lhe foi dito para o tirar do lume após bem assado. O que os “ttokhomenses queriam era que as pessoas dissessem com clareza o que pretendiam que se fizesse, para evitar ouvir o que muitas vezes tem se assistido.- Eu te disse para fazeres isto, e tu fizeste aquilo. Tinham ou não razão os ttokhomenses, neste seu modo de proceder?

“Estas formas de agir mostram mais uma vez que, nas nossas formas de falar recorremos a figuras de estilo, eles têm um modo de pensar que visa retificar algum comportamento não linear, não bom e que na verdade muitas nossas falas contradizem o que queremos que seja feito ou dito, pelo facto de não sabermos explicitar a informação”.

A história da Lunga e a Dominação Colonial

Segundo as vozes da comunidade de Lunga, representadas pelo ancião Alúmeta, “chehe” respeitável e digno de crédito refere que:

“No princípio da ocupação colonial, os portugueses fundaram uma capitania –mor (posto militar) numa área da Lunga chamada Mwaakoni, defronte de Muchelia, na margem direita do rio Monapo, actualmente zona da regedoria de Muticuite, que não foi fácil o empreendimento de conquistar toda a região da Lunga, na altura dirigida pelos Reis tradicionais: Nánkela, que ocupava as zonas de pattakhwe e Khivulani; Nánjeka, senhor das zonas de Namarema e Murúla; Móvere, dono de Mutomonho,Turuni, Mutikhwiti e Murotthoni (hoje Nantturuma); Namwala, da zona de Mavura  reis esses que, tenazmente resistiram à penetração estrangeira. Os portugueses só conseguiram conquistar e ocupar Lunga com auxílio de Xá-Mólid, conhecido por “Mukhupa”, oriundo de opuukhini (Madagáscar) e era astuto.

Para alcançarem os seus intentos, os colonialistas aliararam-se a Mukhupa (Xá-Mólid) que os visitava frequentemente em Mwaakoni, atravessando de lancha a baia de Mkhanku, provincia de Nampula, à baia de Mucambo. Recorrendo a várias estratégias, “Mukhupa” (Xá-Mólid), conseguiu ganhar a amizade e confiança do rei Movere, a quem ardilosamente “pediu emprestada” a espingarda (arma tradicional) de carregar pela boca de que o rei se servia, e não mais lha devolveu; paulatinamente, Mukhupa (Xá-Mólid), foi conquistando a confiança dos restantes reis da lunga, pedindo-lhes emprestadas em separado as armas, que nunca mais lhas devolvia, desarmando-os deste modo, e convencendo-os a aceitarem a entrada pacifica dos portugueses.

Estes efectivamente vieram e fundaram um posto militar em Lunga, no local onde se situa o actual posto Administrativo do mesmo nome, ocupara toda a zona e nomearam “Mukhupa” (Xá-Mólid), chefe supremo de todos os reis da região, apresentando como argumento o pretexto de que estes eram rebeldes e analfabetos.

 “Mukhupa” (Xá-Mólid), por sua vez, nomeou e colocou para régulo de Murula o seu irmão Xa-Jamal Seguro, em lugar de Nánjeka; para régulo de Mutomonho colocou o seu sobrinho Naatekhume, no lugar de Móvere; para régulo de Mutikwiti, o seu irmão /primo Mwantepa; para régulo de Mukuthula e Namiropela, o seu primo Muhammade Mookotthiya ( também conhecido por Mwaalimo- professsor em swahili); transformou alguns reis tradicionais locais em cabos ou chefes de grupo de povoações, substituindo outros pelos de sua confiança e familiares, tais como cabo Salimo, em lugar de Mavura (em Namavura) e Muhammade

Atumane, em lugar de Namwala (em Niyapala). O próprio Mukhupa ou seja, (Xá-Mólid), ficou com a região de Khivulani ( do rei Nankela, por ele destronado).

Mais tarde, os antigos reis tradicionais começaram a reivindicar os seus direitos sobre os respectivos dominios. Foram convocados a comparecerem na sede do posto da Lunga, para dali seguirem a Mossuril sede do Distrito, a fim de la ser resolvido o seu problema. Foi então quando quase a chegarem à sede do referido posto, um deles, o rei Namwala de Niyapala, pensando que ia ser preso e morto pelos brancos, disse aos companheiros de viagem que ele preferia suicidar-se do que entregar-se aos anaphulu “rãs” (designação pejorativa que se aplicava aos brancos portugueses por surgirem pelas águas do mar a semelhança dos anfibios). Dito e feito, afastando se um pouco da comitiva, encostou-se de um imbondeiro, pegou numa faca bem afiada que trazia consigo a cinta e com ela abriu a barriga, num gesto brusco e decidido, com os intestinos a sair do ventre aberto e ensanguentado, caiu por terra. Agonizante foi transportado para o posto, vindo a falecer horas depois (Viegas, sd).

Entre outros aspectos, no que se refere ao regulado de Panto, em Kivulani, tinha começado com Mukhupa e que este tinha estendido o seu poderio até a Namavura e Niyapala, incluindo Mutomonho, reino de Móvere, usurpando-o e colocando nele Naatekhume, seu familiar. Falecido este, sucedeu-lhe no trono Aiúpa Hephere, de alcunha “Xánkhono” (porque tinha braços recurvados), depois deste, veio Saide Seguro já falecido em consequencia de um acidente de moto quando chocou com um javali no troço de estrada que vai de Mutomonho à sede do posto Administrativo de Lunga; a ele sucedeu-lhe Muhammade Atumane que anos depois faleceu no hospital da Ilha de Mocambique. Muhammade Atumane estava para ser sucedido por Aiúpa Momade, conhecido por “Namuru”, seu sobrinho materno.

Aiúpa Momade (Namuru) não chegou a governar em lugar de seu tio Muhammade Atumane, da regedoria de Mutomonho, pelos seguintes motivos:

1. Saide Seguro havia-o indicado para seu sucessor, mas até a data da sua morte, Aiúpa ainda era menor, pelo que seu tio Muhammade Atumane tomou a direcção do regulado, como regente.

2. Quando atingiu a maioridade e já prestes a tomar o seu lugar de regulo, Aiúpa (Namuru)foi apanhado em flagrante delito, falsificando as senhas onde eram anotados os quilos de algodão que estava sendo comercializado, cobrando aos vendedores o dinheiro correspondente aos quilos acrescentados e foi preso e transferido para a sede do Distrito (Mossuril).

Assim, foi considerado falso, desonesto e inapto ao cargo de régulo, tendo sido legitimado e confiado o regente Muhammade Atumane como régulo no trono de Saide Seguro na regedoria de Mutomonho, acabando por governar até a data da sua morte.

“Como podemos ver, nessa obra existem muitas informações com características de géneros de discurso primário e secundário porque estas informações são orais e tendamos transformá-la em escrita. Há códigos proxémico, sociais, de sobrevivência. Pode-se comparar os factos com a primavera árabe olhando a maneira como “ o rei Namwala de Niyapala” decidira se suicidar evitando entregar-se aos portuguses; pode-se ainda colher como um conto, uma narrativa, uma novela entre outros géneros de discurso, elementos que caracterizam a nossa literatura moçambicana e as nossas línguas.

”Como podemos ver a literatura mexe com todas questões da nossa existência e esse texto tende nos trazer sob diferentes formas de olhar o mundo e de como estruturar a nossa história, e que organizando bem permitirá a conhecer os nossos antepassados,  a forma como estavam organizados as nossas estruturas tradicionais, como estão e porque que estão assim hoje. A história de Lunga a que nos dedigamos a descrever, é o exemplo de muitas histórias espalhadas pelo país que ainda  não foram publicadas e precisamos de expandir essas histórias permite-nos a fazer uma análise do passado, presente e no futuro, ver como é que isso está acontecer hoje, aconteceu no passado, as contradições e tensões entre as diferentes classes, é preciso relacionar aquilo que está acontecer agora com aquilo que aconteceu no passado. É dai que, dizemos que este trabalho enquadra-se na literatura, porque a literatua não ocorre no vazio, tal como falamos de géneros de discurso que é preciso saber no tempo e no espaço, também estes acontecimentos precisam ser enquadrados no tempo e no espaço, para melhor contextualização e nós como estudantes de linguas bantu, temos que conhecer um pouco de história e cujo essas línguas também têm uma história que precisa ser contextualizada no tempo e espaço”.   

Estrutura indígena da Lunga

De acordo com Viegas, (s/d), a área geografica do posto administrativo da lunga está dividida em regedorias (ou regulados), cabos (ou grupos de povoacoes) e  povoaçoes (propriamente didas).

No concernente às regedorias (ou regulados),são elas: Regedoria de Quivulane, Regedoria de Murúla, Regedoria de Motumunho, Regedoria de Muticuite e Regedoria de Mucutula. Estas regedorias eram outrora governadas por régulos (ou regedores), com auxilios dos respectivos cabos (chefes de grupo de povoaçoes) e estes, por sua vez, coadjuvados pelos capitães (chefes de povoaçoes) do seu território, além de outros digenitários e pessoas da estrutrura tipicamente tradicional: simples “mapewe”, “mabúmu” e (mapwiyamwene).

Em paralelo aos cinco régulos e dezanove cabos (ou chefes de grupo de povoaçoes) que conheci em pessoa, contam-se os dignitários e influentess no seio social da lunga de então (alguns dos quais com residência em Quivulane e/ou em Mwanángome), nomeadamente: Mwenyé Taruweexe (irmão mais velho de Xaaweexe e antecessor deste no regulado dos panto, em Quivulane); Mwenye Mólide Vulay (decendente do antigo potentado o Vulay, em Quivulane); Mwenyé Abákhari (pai da cantora moçambicana Zena Abacari, em Quivulane); Mwenyé Kweréneya (parente do régulo Mwantepa de Muticuite e do Ex-Ministro de planificação e Desenvolvimento Aiúba Guereneia, no mandato de Chissano e Guebusa), Mwenye Nahota Jamal, (dirigente de barco a vela, na altura muito conhecido na ilha de Moçambique e no Mossuril; e outros.

Nota. O termo “Mwenyé”, provém do meio islâmico, que significa “senhor”. Portanto o mesmo não é pejorativo, como se pensa no seio de influência portuguesa, nem é exclusivo aos indivíduos de origem indiana.

“Então, como se pode ver, o extracto acima nos traz uma visão clara sobre a organização tradicional da população de Lunga naquela altura, que com a vinda dos europeus rompeu se essa estrutura organizacional daquele povo. Temos aqui, primeiro a descrição genealógica das estruturas tradicionais da região, segundo a presença colonial e conquista das nossas terras e a consequente destruição das antigas estruturas e substituição pelas actuais ligadas à elite e em última instância, como estudante de línguas bantu vamos pesquisando outras histórias, outros excertos ligados aos povos bantu que possamos escrever e constituir materiais de uso para o ensino e valorização das línguas bantu, que é o grande objectivo que pretendemos alcançar.

Escrito por Jacinto Jeque para Tsevele

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