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terça-feira, 01 fevereiro 2022 19:32

Mal-Coado: uma bebida derivada de milho

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Mal-coado é uma bebida tradicionalmente dos machanganas, grupo linguístico que habita as províncias de Gaza e Maputo, Sul de Moçambique. Ela é preparada à base de farelo de milho, açúcar e água.

Cândida Venâncio é uma idosa residente na Cidade de Inhambane há mais de vinte anos. Desde pequena, a Sra Cândia conta que fez parte da sua vida a produção de bebidas alcoólicas. É com ela que vamos embarcar nesta viagem para entender um pouco mais sobre o mal-coado.

A Sra. Venâncio acredita que o nome mal-coado deriva do processo da sua preparação, que é   todo feito manualmente, sem envolver qualquer processo mecânico. No processo, é possível que escapem residuos para o conteúdo que depois será a bebida, daí o nome mal-coado.

Modo de preparo

Para preparar mal-coado, a nossa entrevistada refere que se pila o milho seco para dele extrair o farelo, a principal matéria-prima. Coloca-se então o farelo numa bacia, onde depois são retirados os resíduos, incluindo grãos de milho. De seguida mete-se num pote ou balde, cujo tamanho dependerá da quantidade do farelo. Acrescenta-se quantidade de água que baste. Mexe-se o conteúdo com uma colher de pau até ficar uma mistura. Tapa-se o pote com um objecto que permita a entrada de ar, para a mistura arejar, e este deverá depois ser guardado em algum compartimento quente, para acelerar o processo de fermentação, sobretudo quando as temperaturas estiverem baixas.

No dia seguinte, mexe-se para evitar que saiam larvas. Este processo repete-se por até quatro dias, momento em que se espera que já terá começado a espumar, indicando que já está fermentado, ponto no qual se precisa que a mistura esteja.

Quando já tiver fermentado, coloca-se o conteúdo numa panela e leva-se ao fogo. Acrescenta-se água suficiente para permitir que ferva a vontade na panela. Este deverá ser mexido durante o processo de fervura, para evitar que queime. "Não pode queimar se não depois a bebida vai cheirar", acrescentou a nossa entrevistada. Para verificar se já está no ponto desejado, pode-se testar através dos grãos de milho que tiverem escapado. A sra. cândida refere que se estes já estiverem cozidos, significa que o conteúdo já está no ponto.

Depois de ficar aproximadamente uma hora na fervura, tira-se do fogo e despeja-se o conteúdo num recipiente limpo, podendo ser uma bacia ou lata, e deixa-se arrefecer por até 4 horas. Cumprido este tempo, acrescenta-se um pouco mais de água, "assegurando-se de não encher para não prejudicar o sabor final", alerta.

Posto isto, é chegado o momento de coar o conteúdo num pote ou balde limpo. Para tal usa-se um coador cujos buracos sejam bem finos, para que não escape farelo enquanto se coa. Este processo pode também ser feito com uma rede, desde que tenha furos finos o suficiente. A mistura deverá depois ser guardada num compartimento quente para poder fermentar.

Se o conteúdo coado for de até 20 litros, pode-se colocar 5 kg de açúcar. Depois mexe-se até derreter o açúcar. Depois prova-se para saber se está no ponto. Depois tapa-se com algo que deixe escapar o ar e guarda-se até o dia seguinte.

No dia seguinte verifica-se se o conteúdo está a fermentar. Neste momento não se pode mexer. Apenas leva-se um objecto para provar se já está pronto. Se estiver doce deve-se deixar por mais alguns dias, mas se já estiver amargo já está pronto para o consumo.

Consumo

A Dona Cândida alerta que deve-se ter muito cuidado com esta bebida, pois ela engrossa muito, por causa do seu teor alcoólico. Entretanto, esta pode ser consumida em convívios, festas, ou quaisquer eventos sociais. Para o seu caso, a nossa entrevistada confessa que, quando bem preparada, ela consegue acabar até 5 litros da bebida durante o dia. "Eu posso começar a beber das 10 até as 17 horas (risos)”.

A preferência de consumo dos admiradores do mal-coado é no verão, porque é o período que fermenta melhor.

Conservação

O segredo para a conservação do mal-coado está no processo de preparação, no qual a sra. Cândia refere que "deve cozer bem". Se, depois de consumido sobrar para outro dia, acrescenta-se uma mão de açúcar, para evitar que apodreça, e também para que quando se for beber no dia seguinte seja saboroso. Este processo pode ser repetido por até dois dias. "Passado disso, as pessoas podem até beber, mas já não vai animar", alerta.

Escrito por Vanila Amadeu para Tsevele

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