tsevelelogo

terça-feira, 22 fevereiro 2022 20:18

Utsi ou Nguete Nguete Zombe: a espiritualidade presente na dança

Dança Utsi_Sofala Dança Utsi_Sofala

A dança Utsi é originária do norte da província de Sofala, concretamente nos distritos de cena, Marromeu, Caia, e Maringué, com uma forte ligação com o povo de etnia Cena.

Segundo relatos dos seus praticantes, a dança é também conhecida por Nguete Nguete Zombe, um dialeto do povo de etnia cena. A dança recebia o nome de Nguete Nguete quando os indivíduos começavam a dançar, e não terminavam a coreografia e, recebia o nome de zombe quando eles dançavam até o fim, ou seja, a coreografia terminava. Para explorar um pouco sobre esta dança contamos com a companhia de Domingos Manuel Francisco, Coordenador do Grupo Malelambeu, e do Diretor artístico, Ernesto João. O Sr. Domingos explica que o termo Utsi deriva de um demónio ou espirito que se manifestava no corpo das pessoas, e fazia com que estas dançassem a dança Utsi.

Segundo este, no passado a dança Utsi era praticada por jovens, não no seu estado mental normal, mas sim possuídos um demónio ou espirito, que recebeu o nome de espirito ou demónio de Utsi que se manifestava no corpo de determinado/a jovem. Após o demónio se apoderar do corpo, a pessoa possuída começava a dançar, não pelo facto deste saber dançar Utsi, mas sim porque era comandado pelo espírito ou demónio de Utsi, explicam os nossos entrevistados.

Quando espírito se manifestava em uma determinada pessoa, devia-se procurar outras pessoas para tocarem os instrumentos (batuques e chocalhos), de modo que a pessoa possuída pudesse dançar Utsi, e era neste momento que o espírito se manifestava, e dançava.

 Domingos Manuel referiu que para além de a dança ser praticada por pessoas possuídas por demónios, era também praticada durante as cerimónias de celebração após um individuo tornar-se curandeiro.

Por seu turno, Ernesto João acrescentou que podia dar-se o caso de o caso de o espírito Utsi ser de uma mulher a manifestar-se em corpo de homem, e este dançava como uma mulher, e vice-versa.

Para descobrir se a pessoa estava possuída pelo demónio de Utsi, por exemplo, a pessoa possuída podia estar a passar próximo a um lugar onde estivessem a dançar Utsi, e dai, o espirito começava a manifestar-se assim que escutasse o som do Batuque e do canto. Quando isso acontecesse, a pessoa dirigia-se ao local, e quando chegava ao local, o espírito começava a se manifestar e a dançar.

Os passos da dança Utsi podem variar de distrito para distrito, mas existem sempre passos específicos, os chamados passos de base, que identificam a dança, e que devem ser praticados por qualquer grupo, explicou Domingos.

Como a dança passou de dança de espíritos para dança comum?

Com o passar do tempo, as pessoas foram adoptando a dança no seu dia-a-dia, como uma dança comum, sem que os seus praticantes estivessem possuídos por espíritos, mas imitando os passos do espírito Utsi.

Foi deste modo que a dança passou a ser conhecida e praticada por outras pessoas, que viam e imitavam as pessoas possuídas pelo espírito de Utsi e, após aprender, podiam ensinar às outras pessoas.

Nos dias de hoje a dança Utsi é uma dança que pode se praticada por todas as faixas etárias, crianças, adolescentes, jovens, adultos e idosos.

Tendo sido perguntado em que momentos se pratica esta dança, o Sr Domingos respondeu que esta pode ser apresentada em momentos de celebração como colheitas, nascimentos e festas.

A dança Utsi é praticada principalmente por mulheres por causa da sua natureza, que exige um bom movimento na cintura. Os homens acompanham as mulheres para tocarem os batuques e outros instrumentos.

Os instrumentos usados para a dança Utsi incluem os chocalhos, o apito, batuque principal denominado Gombe, e o Macatxi os batuques acompanham o batuque grande. Sr. Ernesto explica que não são todos os grupos que dançam com os batuques, outros dançam simplesmente batendo os chocalhos. Antigamente não se usavam os chocalhos, batiam-se as palmas, mas este hábito foi ficando para trás uma vez que durante a dança, ao bater as palmas, as mãos doíam, e dai surgiu a necessidade de se procurar um instrumento que fizesse um som parecido com as palmas, os chocalhos.

Escrito por Margarida Amadeu paras Tsevele

Anuncie