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terça-feira, 01 março 2022 20:13

NwaMukhakha ou Dona Ana: uma história de amor, inspiração e bravura

esq. Dona Ana e Joaquim Alves; dir. actual hotel Dona Ana em Vilankulo esq. Dona Ana e Joaquim Alves; dir. actual hotel Dona Ana em Vilankulo

Os primeiros passos da urbanização da então Vila de Vilankulo foram dados por Joaquim Alves, empresário hoteleiro e colaborador da autoridade colonial. Joaquim Alves havia se casado com uma mulher negra nativa, identificada nos anais da história de Vilankulo por Dona Ana. Foi por esta mulher que Joaquim Alves se apaixonara e que por ela faria tudo. E fez.

Numa altura em que raramente uma mulher negra podia casar-se com um homem branco, Dona Ana fez história ao não só se juntar maritalmente com "mulungu", como também por ter feito ele "morrer de amor".

Juntos eram os donos de todas as casas turísticas em Vilankulo e ilhas. Eram os donos do "Hotel Dona Ana".  Controlavam os negócios nas ilhas Magaruque, Bazaruto, Santa Carolina, onde haviam construído diversas infraestruturas hoteleiras.

A Dona Ana, mulher de garra e tenacidade, determinação e foco, era conhecida como a Dama de Ferro: chata, exigente e focada no progresso.

 Eis então que Joaquim Alves, seu marido, de tanto amor por ela, ergueu um hotel, entre 1948-1950,  na zona de "Mucoque", o qual apelidou-o de Dona Ana, o seu eterno amor.

Não era um simples nome atribuído a um dos mais luxuosos hotéis de Moçambique, era sim, a mais alta manifestação de amor e admiração de um homem poderoso para uma mulher nativa que passara a controlar os negócios do seu esposo.

Para alguns, aquele amor não era normal, Dona Ana de tanto ser esperta, tinha dado "nkotsolo" ao “mulungo”. Nkotsolo é a expressão usada no sul de Moçambique para designar um acto de bruxaria que consiste em "engarrafar" ou "pôr o homem na garrafa", para que este possa morrer de amores, não esconder salário, não trair e considerar a mulher como "centro do universo".

Para outros, era um amor verdadeiro, e que Joaquim Alves tinha sentido a "doçura" da Dona Ana, apoiando-se na tese que coloca as mulheres de Inhambane como as mais "poderosas" e as que sabem melhor "pegar o homem".

Verdade, porém, Dona Ana era sim o centro do universo de Joaquim Alves. Além da designação do Hotel, Dona Ana era também popularmente conhecida por NwaMukhakha.

Por conta da Dona Ana, há na região muitas "NwaMukhakha's", bastando apresentar os adjectivos acima referidos

A designação NwaMukhakha é associada ao seu piri-piri tão picante. As pessoas da época diziam: "a sowori Ga Dona Ana gi bhava nguvu, gu kha kha kha kha...", O que em português quer dizer: o piri-piri da Dona Ana é muito picante, pica, pica, pica, pica...logo a designação NwaMukhakha.

Só de abrir o frasco, ficava-se de olhos inundados de lágrimas. Não era qualquer pessoa a preparar assim o piri-piri, era a Dona Ana. O piri-piri Dona Ana, era embalado em frascos e distribuído a vários consumidores, dentro e fora de Moçambique.

Com a situação de colônia em que Moçambique se encontrava, a Dona Ana acabou rumando a Portugal junto com seu marido Joaquim Alves. E como não tiveram filhos, todos empreendimentos e negócios ficaram à sua sorte, e com a nacionalização no período pós-independência, tudo ficou convertido em património moçambicano.

Seu marido perdeu a vida primeiro, deixando a esposa na miséria. Ela também viria a morrer pobre num lar em Nazaré, Portugal.

Escrito por Amadeu Quehá para Tsevele

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