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terça-feira, 19 abril 2022 20:00

Colorau: um toque de brilho para a gastronomia Moçambicana

Urucu ou colorau Urucu ou colorau

Também conhecido como falso-açafrão ou urucu, colorau é um pó obtido através da trituração dos frutos do coloraueiro ou Bixa orellana, uma planta originária da América Tropical e abundante em alguns países Africanos, incluindo Moçambique.

A Bixa orelana  pode atingir até 6 metros de altura e tem um fruto cujas características são distintas: cascas cobertas por espinhos cujo interior esconde as valiosas sementes vermelhas. É delas, as sementes, que se extrai um corante usado na indústria têxtil para tingir tecidos e na culinária para realçar a cor dos alimentos. Este tempero é bastante usado na culinária Moçambicana.

A especiaria proveniente deste fruto pode ser preparada industrialmente ou de forma artesanal ou caseira, esta última opção tida como preferencial para o consumo ao nível local na província de Inhambane. E por ser preferencial, há investimento por parte de algumas famílias locais na preparação deste corante, que se percebe dar uma coloração diferente aos alimentos. É o caso da família da dona Faira, natural e residente em Inhambane. Ela produz o colorau para consumo e venda; e é com ela que vamos aprender o passo a passo sobre como então o leitor pode, mesmo em sua casa, preparar este condimento.

A dona Faira refere que preparar o colorau é “difícil, pois precisa-se de muita força, afinal pila-se bastante”, entretanto, segundo acrescenta, o processo é recompensador não apenas por se constituir como um aliado na busca por agradar os olhos, como também ao bolso, afinal, no seu caso, ela também vende o produto.

Para preparar o colorau é necessário deixar o fruto da planta abrir-se naturalmente enquanto ainda estiver na árvore e nela deixar secar. Tem também a opção de partir os ramos que seguram os frutos quando estes já tiverem atingido a maturação e estejam na véspera para se abrir e deixá-los conservados em ambiente seco e quente para que se possam abrir por si.

Depois de secos, caso se tenha optado pela primeira opção, removem-se da planta e estende-se em um saco para colocar ao sol e secar um pouco mais. Depois de secos, os frutos são colocados no interior de um saco, o qual deve ser amarrado e depois, com um pau, golpeado, para permitir que as sementes possam sair das cascas. Seguidamente estas são separadas das cascas.

A fase a seguir é a peneiração das sementes para separá-las de  de possíveis resíduos. Depois de limpas, estas devem ser levadas à panela previamente seca e colocada ao fogo brando. “Deve-se estar por perto para controlar o conteúdo e de vez em quando revirar as sementes de modo a evitar que estas queimem”, acautela a nossa entrevistada. O processo continua, sendo que seguidamente acrescenta-se óleo ao conteúdo, bastante o suficiente para molhar as sementes, e então continua-se o processo de pegar a panela e revirar as sementes.

O cheiro do colorau é forte, por isso a dona Faira refere que “Leva-se as sementes ao fogo para cortar o cheiro, apesar deste não ser tirado por completo”. A nossa entrevistada menciona ainda que este processo também facilita bastante no processo de colorir a farinha de milho (outro ingrediente usado no processo) com mais rapidez.

Findo o processo, o conteúdo deve ser conservado até o dia seguinte, o qual deve-se, de vez em quando, mexer o conteúdo. Fica-se, por fim, dois dias com o conteúdo conservado na panela.

O processo final, findos os dois dias, envolve a farinha de milho. Agora mistura-se à farinha de milho o colorau, com quantidades de até um copo de farinha de milho para cada copo de sementes. Bem feita a mistura com uma colher de pau ou outro instrumento disponível, esta é levada ao pilão para que então possa haver a “passagem de testemunho” da cor das sementes para o milho.

Quando já estiver vermelho o suficiente, que é o ponto necessário, tira-se o conteúdo com uma colher de pau para uma peneira. “Deve-se usar de uma colher de pau ou outro instrumento semelhante para tirar o conteúdo do pilão para a peneira pois suja bastante”, alerta a nossa entrevistada. Começa-se então a peneirar para separar a farinha das sementes, estas que depois podem ser deitadas. E assim termina o processo, sobre o qual a nossa entrevistada dá como uma das principais chamadas de atenção “Há que ter muito cuidado ao preparar o colorau, pois caso se suje com ele torna-se nódoa permanente.”.

Utilidade gastronómica do colorau

Em Inhambane nem sempre se consumiu o colorau da mesma forma. Fazendo uma análise retrospectiva, a dona Faira refere que “Nos tempos passados consumia-se bastante o colorau preparado desta forma, mas agora por causa da existência de outros temperos reduziu a quantidade de pessoas que o procuram”. Ainda assim, para os que optam por ele, têm várias opções à sua disposição. Entre elas está o facto de poder ser usado para confecionar caris feitos à base de óleo, como carnes, peixes ou outras comidas, como coco, por exemplo, dependendo da preferência de cada um. Quando se adiciona ao caril de coco, a dona Faira dá a dica de coá-lo com coco. Mas também tem a opção de acrescentar este tempero no momento em que se coloca a cebola ao caril.

“O colorau dá beleza ao caril. O sabor também existe mas ele é mais para dar beleza” explica a dona Faira. “Mas, não se pode encher muito, porque se assim o for, o caril fica muito vermelho, muito mais que o necessário, e perde a estética” refere.

Para quem consome o colorau deve saber que existe a opção caseira que, por sinal é a mais saudável, mas também existe o industrializado. A diferença entre ambos, nos conta a dona Faira, reside no facto de “no industrializado serem adicionados muitos componentes químicos, enquanto o caseiro é natural e todos podem comer mesmo quem tenha restrições alimentares no consumo de temperos”.

Valor medicinal

Entre as propriedades medicinais do colorau estão a proteção contra raios ultravioleta, redução do colesterol, bem como alívio de dores de estômago e problemas respiratórios. Este também tem uma acção antioxidante, anti-inflamatória e também cicatrizante.

A dona Faira refere que as raízes da planta de colorau podem ser usadas no tratamento de anemia, no qual fervem-se as raízes e toma-se a água.

Conservação

Este ingrediente pode ser conservado em um recipiente fresco e seco. Asseguradas estas condições, este pode durar anos.

Escrito por Vanila Amadeu para Tsevele

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