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terça-feira, 10 maio 2022 19:15

Contos Africanos: Pfundla ou Coelho: um símbolo de astúcia

Imagem ilustrativa de coelhos Imagem ilustrativa de coelhos

Pfundla ou NwaPfundla (em língua Citswa), ou simplesmente coelho, é tido nos contos tradicionais Africanos como o animal mais astuto, o que vem realçado em diversas fábulas. Neste texto, trazemos algumas das mais populares fábulas presentes na tradição oral Moçambicana.

O coelho e o leão

O Leão gostava de uma rapariga muito bonita. Decidido a casar-se com ela, foi falar com os pais dela para obter o consentimento. Os pais concordaram com o namoro, mas impuseram uma condição ao Rei da Selva: que lhes trouxesse dois coelhinhos. O Leão aceitou.

Não tardou o Leão a encontrar o que pretendia - dois daqueles animalzinhos que estavam sós. Meteu-os dentro de um saco e dirigiu-se imediatamente para a casa dos futuros sogros.

Pelo caminho encontrou o Coelho, e pediu-lhe que o acompanhasse para ajudá-lo a fazer a entrega do dote, carregando também o saco. Eis que o orelhudo acedeu ao convite. Durante a viagem, o Coelho, animal esperto e muito curioso, resolveu averiguar o que o Rei dos animais levava no saco. Serviu-se então de um truque, fazendo um pedido:

- Senhor Leão, deixe-me ir fazer necessidades.

- Vai lá!

O Coelho aproveitou-se da ocasião e levou o saco consigo. Ficou muito espantado quando viu os seus dois filhos lá dentro.

Decidiu vingar-se. Tirou os dois coelhinhos e encheu o saco com um enxame de abelhas. Chegados a casa dos futuros sogros do Leão, este disse ao Coelho:

-Amigo Coelho, podias sair por algum instante? queremos tratar de assuntos muito privados com os sogros.

- Com certeza, senhor Leão, eu saio, e acho que devo fechar bem a porta e amarrá-la, para que eu não ouça as vossas importantes conversas, não acha?

A sugestão foi bem acolhida e o Coelho amarrou a porta por fora, com cordas muito fortes. O Rei da Selva abriu o saco para apresentar os dois coelhinhos pedidos pelos futuros, mas que na verdade já lá não estavam. As abelhas começaram a distribuir ferroadas a todos os que se encontravam dentro da casa, sem a mínima possibilidade para sair. O Coelho regressou ao seu buraco, contente por ter recuperado seus filhotes.

 

O coelho e a princesa

Havia um rei que tinha uma linda filha desejado por todos na aldeia.

A formosura da rapariga chamou atenção dos mais poderosos da selva, que não quiseram medir esforços e recursos para se casar com ela.

O rei e pai da donzela já havia informado a todos que quem quisesse casar a sua filha, teria que fazê-la falar primeiro, visto que era muda.

Assim, chamava-se aqui a capacidade de cada um no uso das suas faculdades e charme, fazer a rapariga soltar bastando uma só palavra para ser declarado “vencedor”.

A fila começou com o rei leão que por ser mais temido, todo mundo não duvidava das suas capacidades. Dirigiu-se à casa do rei para pedir a mão da filha. Os dois foram metidos numa palhota a sós. As anciãs aguardavam do lado de fora escutar uma só palavra da rapariga, caso o rei leão conseguisse "provocar" a fala.

O leão falou das suas capacidades, da sua bravura e até prometendo a filha do rei boa vida ao mesmo tempo que exibia a sua famosa e charmosa juba. Que nada, a rapariga permaneceu silenciosamente indiferente ao talento do rei leão. Era o tempo do rei leão de pedir a mão da filha do rei que esgotava. Este foi-se todo chateado ao mesmo tempo envergonhado por ver ameaçada a sua hegemonia.

Veio então o corvo. O cenário foi o mesmo. O corvo começou por se introduzir, fazendo-se passar por quem sobrevoa todas as paisagens que o mundo oferece, os encantos da natureza eram todos por ele conhecidos e que levaria a princesa a contemplar deles sempre que quisesse.

Continuou o corvo, prometendo à rapariga almoço aqui e jantar acolá, assegurando que iria levar a futura esposa a voar com ele e dar um abraço aconchegante, onde o calor das suas asas seria maior que de um manto de lã.

Esta explicação não foi suficiente para fazer a rapariga falar. O corvo, igualzinho ao rei leão, saiu todo chateado e envergonhado.

Sucedeu assim com o crocodilo, que prometeu a princesa as melhores piscinas e carnes da selva. Nada.

Eis que NwaPfundla, o coelho, tendo acompanhado que os mais poderosos foram rejeitados pela princesa, decidiu por à prova às suas faculdades intelectuais.

Quando todos souberam que ele se preparava para ir tentar o que todos não conseguiram, todo o mundo chacoteou do coelho, dizendo que não ia conseguir.

Mas, o coelho não se rendeu. Numa manhã ensolarada, pôs-se a caminho da casa do rei. O objectivo era voltar com a princesa como sua esposa.

Chegado à casa do rei, o coelho foi mal recebido, confundido com alguém que viesse pedir trabalho. Só se aperceberam da seriedade da sua ida lá, quando perguntou pelo rei para explicar aos motivos que lhe levaram àquela casa.

O procedimento era o mesmo com os seus antecessores. Fazer de tudo para fazer a rapariga falar.

Sem demora, o coelho pediu para que aceitassem que ele levasse a princesa a machamba para juntos sacharem. Era tempo de sacha, e a cultura que havia na machamba era o amendoim.

Chegados na machamba, os dois (o coelho e a princesa) começaram a sachar, ao mesmo tempo que NwaPfundla enchia a rapariga de palavras doces.

A rapariga continuou no silêncio.

O coelho ia sachando, sachando...de repente começou a cortar o amendoim que havia na machamba. Imediatamente, a princesa viu-se obrigada a chamar atenção para que o coelho parasse de estragar as culturas. E pronto, o coelho tinha finalmente provocado a fala da princesa. Os dois voltaram à casa do rei a conversar, rindo e abraçados.

O rei sem demora, mandou os seus servos oferecer um grande banquete antes de sua filha ir ao lar. E assim sucedeu. NwaPfundla conseguia assim um facto inédito devido a sua inteligência e humildade.

 Como vimos nos contos acima, a heroicidade de NwaPfundla nestes contos representa um verdadeiro desafio à hierarquia corporal, causando inveja a gigantes como o rei elefante, o mais corpulento da selva e o rei leão, o mais chato e temido por todos.

Na tradição oral Africana, o coelho aparece sempre como o mais perspicaz, visionário e ganhador. A insignificância da sua pequenez é contrariada pela astúcia do seu cérebro que simboliza o extremo mais alto da sabedoria.

Contos por Amadeu Quehá para Tsevele

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