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terça-feira, 28 junho 2022 19:11

Montes Namuli: o berço dos povos Makhuwas e Lomwés?

Montes Namuli Montes Namuli

Owani onamuli, assim dizem os povos Amakhuwas, que traduzido para Português significa “Namuli é a nossa casa”, neste caso, o Montes Namuli. Várias fontes orais e algumas escritas, por exemplo, o Centro de Estudos Moçambicanos e Tecnociências da Universidade Pedagógica de Maputo, referem que é nas grutas do Namúli que a história/mitologia situa as origens dos povos Makhuwa e Lomwé, de onde se irradiaram, povoando partes consideráveis das actuais províncias da Zambézia, Nampula, Niassa, Cabo Delgado, e a fracção oriental da República do Malawi. Estes povos prestam vénia às “divindades” das grutas dos Montes Namúli, o que justifica a referência ao Namúli nas preces, rituais, na invocação aos antepassados, e em outras práticas do quotidiano.

Situado na província da Zambézia, distrito de Gurué, é a segunda montanha mais alta de Moçambique com 2,419 metros de altitude. É literalmente conhecido como o local onde repousam eternamente os espíritos dos seus ancestrais dos povos Makhuwa e Lomwé. Antigamente, este local era terra proibida, considerada terra sagrada. Contam os nativos que quem se aventurasse até a parte de cima do monte (como é muitas vezes, nesta parte do mundo, o castigo de quem viola alguma regra costumeira) a pessoa perdia-se e nunca mais localizava o caminho de regresso para casa. A Rainha, que é a autoridade tradicional que zela pelo monte “vive ao lado da montanha” como uma verdadeira guardiã desse importante património histórico.

Contam os nativos que no cume do Namuli existem vestígios misteriosos (mirirya, em Emakhuwa) como peugadas humanas supostamente dos primeiros Homens, Lagoa, Anões e frutas como Bananas. E acrescentam que tais vestígios só são visíveis mediante a obediência dos rituais (maqueya) previamente feitos sob liderança da autoridade tradicional local, caso contrário, nem ao cume chegará e com risco de se perder para sempre no monte.

Antes da expansão do cristianismo, o culto dos povos que residia nesta área do monte era exclusivamente feito na base de cerimónias onde se invocavam os espíritos repousantes no monte, como forma de manter um elo entre os vivos e os mortos. A não observância das regras dos rituais por alguns visitantes clandestinos, e a penetração do culto cristão em substituição do tradicional contribuiu para o desaparecimento dos misteriosos anões, contam os anciões locais.

A mesma fonte acrescenta que os povos da cova dos montes Namuli teriam inicialmente vivido num grande planalto do monte, e com o seu crescimento populacional, começaram a surgir lutas entre eles, entre as diversas famílias, e como resultado, deu-se o êxodo e dispersão dos residentes para diversas regiões da província, primeiro pelo canal do rio Malema, que por sinal tem a sua nascente no Monte Namuli, e depois para outras províncias vizinhas.

Assim, pelo seu património histórico, cultural e natural, recursos hídricos e potencial turístico, o Monte Namúli tem uma importância significativa para o país. Portanto, para além da flora e fauna, a região do Monte Namúli detém consideráveis potencialidades culturais e espirituais para as comunidades Makhuwa e Lomwé, e não só.

Escrito por Ganito Bantaleão para Tsevele

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