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terça-feira, 09 agosto 2022 18:29

Dança Maulide: a convergência entre religião, cultura e mistérios

Representação da execução da dança maulide Representação da execução da dança maulide

Maulide  é uma dança tradicional nativa da zona norte do país, na província de Nampula, com maior predominância na Ilha de Moçambique, de onde surgiu há cerca de 82 anos, mais ou menos entre a segunda metade do século XIX e o início do XX bem antes das outras expressões musicais e dançantes, como o dtiqiri e o tufo. Acredita-se que a mesma tenha chegado no norte de Moçambique pelas mãos de habitantes das Ilhas Comores, Madagáscar e Zanzibar que faziam parte das redes internacionais de comércio, mas envolviam também um caráter religioso, baseado na expansão da religião islâmica por meio de três confrarias sufis: Rifa'Iyya, Shadhiliyya e Qadiriyya.

Estas redes internacionais resultaram em um intercâmbio bastante intenso de pessoas e saberes relacionado à educação islâmica. Na época, Sharifs e Shehes, que são pessoas com conhecimento do Islão,     saíam das suas localidades para expandir os preceitos da religião no norte de Moçambique. Muitos filhos de chefes locais viajavam para aquelas localidades para aprimorarem a educação islâmica. Para além da ilha de Moçambique, esta dança também pode ser vista na região de Angoche e Pemba, e era muito praticada nos casamentos islâmicos.

A Rifa'iyya teria precedido as outras duas confrarias, foi fundada por Ahmad al-Rifai, nascido no início do século XII, no Iraque. Na segunda metade do século XIX, a confraria aportou nas ilhas Comores, levada por Said Salim bin Said Ahmad Al-Hamani, que teria entrado em contacto com essa ordem em Zanzibar, onde era muito difundida, inclusive no interior da Tanzânia. Muito provavelmente chegou ao norte de Moçambique nesse mesmo período levada pelo oceano Índico via Zanzibar ou Comores. Esta confraria era muito conhecida por realizar os rituais de dtiqiri - "rememoração de Deus" - por meio de cânticos, danças, práticas de transe, quando os praticantes penetravam estiletes em seus corpos que também foi chamado por "batuque das facas" por António Enes, secretário de Estado da Marinha e das Colónias e futuro comissário régio em Moçambique em 1894 e as outras duas ordens - Shadhiliyya e Qadiriyya - foram constituídas em Moçambique em 1897 e 1904 respectivamente.

Actualmente a confraria Rifa'iyya não existe oficialmente, mas o ritual Maulide ainda é praticado em poucas localidades do norte de Moçambique, o caso da Ilha de Moçambique.

O termo Maulide é emprestado da palavra Mawlide que, em árabe, significa "aniversário do Profeta". Contudo, aqui não é empregue com esse significado, ou seja, não têm relação específica com o aniversário de Maomé, podendo acontecer em diferentes ocasiões.

Uma dessas ocasiões é nos rituais onde os homens dançam com uma espécie de agulhas navalhas, pregos grandes de aço ou objectos afiados que se chamam ʺTupachiʺ, que aparentemente se espetam na região abdominal e na face durante o ato da dança, tendo admiração do público pelo facto de os dançarinos não sangrarem nem os corpos apresentarem marcas de lesões, onde especificamente têm como principal objectivo celebrar Deus, isto é, Alá (em língua árabe) como uma demonstração de Fé.

As canções são extraídas de um livro e são passadas de geração em geração, escrito com caracteres árabes. Muitas canções repetem a fórmula, em árabe, lā ʾilāha ʾillā llāh, que quer dizer "não há outra divindade além de Deus". São os famosos dtiqiri - repetição do nome ou expressões de louvor a Alá. Os instrumentos utilizados nessa manifestação são da família dos membranófones, que podem ser de diferentes tipos e tamanhos, feitos com pele de cabrito.

Também existem as as daíras, uma espécie de pandeiro. A música, então, proporcionaria o transe. De acordo com alguns antropólogos, o transe, em algumas regiões da África oriental, está ligado à crença nos génios (jinns), nos anjos e nos diabos, que fazem parte do Islãm. Esta é uma forma de devoção popular sufista que encontra consolo, antes de tudo, nos fenómenos psíquicos, na comunicação com os espíritos, nos gênios, no transe atingido graças à dança, à magia, aos prodígios como a mastigação de vidro, a perfuração dos corpos com a ajuda de facas e assim por diante. Nos poderes do psiquismo e nos estados mentais que se apresentam além da normalidade, encontram-se as provas de uma realização espiritual.

 Para preparar o corpo, os dançarinos devem passar por um ritual para que os instrumentos manuseados para espectar seus corpos não possam causar danos que culminem em morte. Sendo assim, os praticantes ficam 15 dias sem actividade sexual, abster-se de bebidas alcoólicas, sem comer polvo e muito menos peixe. Antes da celebração, bebe-se um composto de leite de ovelha, banana, mel e uma "água medicinal" que, segundo seus praticantes, serve para não sangrar e não sentir dor. O material usado neste ritual deve ser manuseado por pessoas experientes naquele tipo de manifestação cultural e que especificamente devem ser exibidas por pessoas do sexo masculino. Como no século passado, hoje o Maulide é uma manifestação realizada basicamente por homens. Entretanto, as mulheres ocupam-se de outras funções, como a organização dos instrumentos musicais (batuque de reua) e rituais como os "capuxis", como denominam os estiletes metálicos e com cabos de madeira usados para a autoflagelação, e as vestimentas, como a cabaia e o cofió peças usadas pelos praticantes da religião muçulmana.

Relato de um intérprete, Salimo Banju de 76 anos de idade - diz que os dançarinos, durante o ritual, por vezes parecem estar hipnotizados e insensíveis à dor, dançavam sobre carvões ardentes e picavam os braços com as folhas ou as pontas das suas facas afiadas.

Ainda em relação ao termo que pode ser empregue em outras ocasiões, há um relato deixado pelo capitão de Angoche, Silva Neves, no início do século XX, que já fazia referência ao Maulide como um batuque. Segundo Silva Neves, havia uma cerimónia que era realizada quarenta dias depois do nascimento do primeiro filho com um jantar (caramo) e um batuque (quiringa ou mólide). Na quiringa dançavam homens e mulheres ao ar livre e no mólide só os homens participavam da dança realizada dentro de uma casa. Nesse momento, o Mwalimo cortava pela primeira vez o cabelo da criança. E também segundo algumas escrituras do livro sagrado dos muçulmanos sobre termo, dizia em uma das suas passagens que o profeta Maomé, quando estava para chegar em Medina, foi recebido por pessoas dançando Maulide. Depois, o shehe Ahmad al-Rifai teria expandido a manifestação, inclusive para a África.

Nos dias de hoje o Maulide encontra-se em extinção por motivos de desinteresse dos jovens da Ilha de Moçambique em assumir o legado da cultura local visto que os seus antecedentes encontram-se se em uma idade que já não podem prosseguir com a prática e para isso necessitaria que houvesse pessoal disposto para continuar com o legado.

Este memorial histórico sobre o Maulide mostra que essas confrarias muçulmanas possuem uma estrutura básica semelhante, que veicula a ligação entre um imigrante da costa ou das ilhas da África oriental com o povo Moçambicano e que isso se tornou uma das expressões como também uma conexão histórica e cultural com os outros continentes, fazendo patente as relações de gênero e a presença do Islão.

Escrito por: Afia Gulamo Rassul Samimo para Tsevele

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