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terça-feira, 20 setembro 2022 14:49

Geofagia: dos mitos aos perigos

Imagem ilustrativa de uma praticante de geofagia Imagem ilustrativa de uma praticante de geofagia

O consumo de areia é uma prática que remonta desde as primeiras comunidades humanas de todas as partes do mundo. Conhecida em Língua portuguesa como Geofagia – consumo de solo ou terra pelo homem, supostamente para melhorar a presença de minerais no organismo, esta prática acontece em Moçambique, um pouco por todas as províncias, sob o rosto da mulher e raras vezes, em indivíduos do sexo masculino.

Mas, o que está por detrás desta prática?

Zélia Jordão é nutricionista com mais de 20 anos de carreira e aceitou falar-nos um pouco sobre esta prática.  Ela explica que a Geofagia pode ocorrer em qualquer indivíduo e idade, mas é frequente em mulheres grávidas. Em todos os casos da sua ocorrência, a causa está ligada a distúrbios psicológicos que afectam a alimentação.

O consumo de areia, pode trazer múltiplas consequências negativas à saúde do consumidor, por ser muitas vezes levada directamente para a boca. Aliás, a nutricionista admite a existência de muitos micro-organismos que não sendo visíveis a olho nu, podem provocar problemas intestinais ou estomacais no indivíduo consumidor.

Mas afinal, como a Geofagia age nos indivíduos que a praticam?

Mônica Tonela, mãe de três filhos, está no seu sexto mês de gestação. Conheceu o seu esposo Jorge, depois de "conhecer o sabor da areia". Ela explica que ganhou o "vício" pela areia na primeira menstruação, e, na sua primeira gravidez, a prática foi se consolidando, já lá vão 14 anos.

Mônica, com apenas 5ª Classe no seu currículo, é vendedora de mercado e conta que não consegue desfazer-se do consumo de areia, porque, segundo ela, por exemplo, a ingestão da areia, dá-lhe uma sensação de bem-estar e paz na alma.

Para satisfazer os desejos da sua alma, a nossa fonte gasta entre 250 a 300 meticais por mês, num investimento já inscrito no seu "orçamento familiar". Mônica viaja até a região de Faiquete, onde adquire o seu "alimento". A areia branca ou vermelha do subsolo, é a que ela considera pura para a satisfação do seu desejo.

Baseando-se no mito segundo o qual o consumo de areia fortifica o feto, incrementando os níveis de Ferro na mãe e consequentemente no novo ser em formação, a nossa entrevistada, confessou ter "herdado" a Geofagia, de sua mãe Marta, que sempre explicava as vantagens desta prática, aconselhando o seu consumo.

Apesar de consumir a areia normalmente, Mônica, explica que gosta deste "super alimento", para além do tempo de gestação, também nos dias que antecedem a menstruação bem como um pouco depois da menstruação, como forma de recuperar as vitaminas, a força.

Aqui, Mônica apoia-se na teoria segundo a qual, a areia, incrementa os níveis de sangue no organismo humano, agindo eficazmente em caso de anemia.

Aliás, Mônica segredou que igualmente consumir areia já no período fértil, aumenta-lhe a vontade sexual, considerando por isso a areia, um "alimento 'sensual' e 'afrodisíaco'".

Mônica e outras mães acreditam que o consumo de areia pelos bebés é benéfico para o fortalecimento dos ossos bem como no afugentamento de doenças, como por exemplo a doença de lua ou "nhokani".

É baseando-se neste mito que, por exemplo, a Mônica põe o seu bebê a sentar-se directamente sobre a terra, para que ao brincar, possa trazer alguma areia á boca e ingeri-la.

Por outro lado, a nutricionista Zélia Jordão explica a Geofagia como sendo um problema que propicia certas doenças no organismo do consumidor, contudo, Mônica é defensora e seguidora do "mito do consumo de areia", como várias outras mulheres ao longo do nosso país.

Escrito por Amadeu Quehá para Tsevele

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