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terça-feira, 11 outubro 2022 18:15

Tépwe: o camarão que “anima” e cura

imagem ilustrativa de camarão rosa fino (Tépwe)e imagem ilustrativa de camarão rosa fino (Tépwe)e

O termo camarão, é uma designação comum a diversos artrópodes, do subfilo crustáceo da ordem dos decápodes, podendo ser marinhos ou de água doce. Os camarões reproduzem-se rapidamente e produzem muitos ovos, podendo ser encontrados em rios que desaguam no mar, em águas interiores de rios, pântanos, lagos, etc, tornando-os bastante resistentes a uma exploração intensiva. Dentre as variedades de camarão pode-se encontrar o camarão branco, o camarão castanho, camarão rosa, camarão-tigre-gigante, camarão-sete-barbas. Na língua Ndhau o camarão fino, que é o camarão rosa ainda pequeno, recebe o nome de tépwe, sendo este um crustáceo que pode ser usado na cozinha e para curar alergias a camarão.

Em uma conversa com Célia Antónia, residente na província de Sofala, ela refere que o tépwe, ou camarão fino pode ser pescado em águas salgadas ou doces, em dias temporais e com mau tempo, uma vez que nesses dias os camarões ficam aglomerados em determinados locais, e os pescadores com mais experiência conhecem os possíveis locais onde possam caçar. Para caçar este crustáceo, usam-se armadilhas típicas, sendo a mais comum a rede de arrasto, embora alguns pescadores utilizem as redes mosquiteiras para a pesca, o que é prejudicial para o ecossistema, pois estas arrastam consigo os ovos do camarão e outros animais desnecessários. Para caçar o tépwe usando a rede de arrasto, é necessário que sejam no mínimo duas pessoas, para que cada pessoa segure a rede, uma de cada lado e estiquem-na, arrastando a mesma nas águas (geralmente nas margens). Uma outra forma de caçar o tépwe é usando as peneiras de redes não metálicas. Estas geralmente são usadas em lagoas para separar o camarão fino da água.

Depois de caçado o tépwe, faz-se a separação do camarão com os outros animais (peixes, caracóis do mar…) arrastados junto com o camarão e coloca-se a secar, geralmente para conserva-lo. Outros pescadores preferem adicionar sal durante a secagem para que o mesmo não apodreça, caso a temperatura esteja baixa e não haja luz solar suficiente para garantir a secura do camarão. Depois de secar o tépwe, alguns usam o mesmo para a venda para obter algum rendimento, e os outros o fazem para o consumo próprio, sendo que na maioria das vezes, o tépwe é preparado para a comercialização e o excedente é que é usado para o consumo próprio. Para além de o tépwe ser consumido seco, este pode ser consumido fresco, dependendo da preferência do consumidor.

Sobre o consumo do tépwe, a nossa entrevistada refere que este pode ser preparado de diversas maneiras, como por exemplo: com caril de coco, com caril de coco e amendoim, como tocossado, ou pode-se simplesmente fritar para acompanhar com outros pratos.

Como preparar o caril de tépwe com coco

Para cozinhar esta iguaria com coco, ou com coco e amendoim, inicialmente faz-se o molho de tomate normal (refogar o tomate, a cebola…) e, caso o/a cozinheiro/a goste de especiarias, estas podem ser adicionadas no molho. A Célia Antónia refere que é da preferência do povo de etnia Ndau adicionar o açafrão, para tal, este deve ser colocado na fase inicial do preparo do molho, isto é, logo a seguir ao óleo para o mesmo poder torar. Depois disto, seguem os demais ingredientes (a cebola, o tomate e outras especiarias que preferir).  Enquanto o molho de tomate estiver a cozer, deve-se coar o leite de coco uma única vez e numa quantidade que baste. Em seguida e depois da cozedura do molho de tomate, adiciona-se o leite de coco e deve-se mexer para que ele fique consistente e para ajudar o caril a ganhar um bom aspecto.

Durante a cozedura do leite de coco, adiciona-se uma colher de chá de maizena, e para tal, deve-se diluir o trigo de maizena num outro recipiente e em seguida adicionar ao caril. este geralmente é usado como substituto do amendoim, pois alguns preferem usar a maizena no lugar do amendoim e vice-versa. Depois de cozido o leite de coco com a maizena, adiciona-se o tépwe fresco e deixa-se a ferver por um tempo, controlando a quantidade de sal e, pode-se adicionar o pimento já no fim. Se o caril já estiver pronto, pode-se retirar a panela do fogo.

Para o tépwe seco, côa-se o primeiro leite de coco (uma pequena quantidade) e o segundo leite. Faz-se o molho de tomate, em seguida adiciona-se o camarão fino seco, e depois coloca-se o segundo leite de coco e mexe-se até que o leite comece a ganhar gordura e a sair o óleo. Após notar-se a presença do óleo no caril, adiciona-se o primeiro leite de coco e deixa-se ferver uns 10 minutos, e pode-se adicionar uma colher de chá de maizena ou mesmo o amendoim, dependendo da preferência do/a cozinheiro/a. Já para finalizar o caril, pode-se adicionar o achar de limão, sem piri-piri, também chamado de Ndimo na língua Ndau, ou pode-se optar por colocar a manga verde fresca. Os Ndhaus geralmente usam uma manga vulgarmente chamada de mabeladona na província de Sofala, para substituir o pimento. "Não se deve deixar a manga ferver por muito tempo porque se cozer muito, esta pode desfazer-se na panela. Isto serve também para o camarão fresco, caso se use a manga״ explica a Célia.

Geralmente acompanha-se tépwe com arroz fresco da machamba, também chamado de arroz novo ou mvwari pelos Ndhaus, mas há quem prefira comer com xima, ou com pão, etc. A xima geralmente é feita com farinha de milho – para preparar esta xima, o  milho é mergulhado na água por um ou vários dias e depois retira-se da água e deixa-se escorrer a água para que se possa pilar com objectivo de tirar a casca e em seguida deixa-se a secar. Depois de seco, volta-se a pilar ou moer o milho para se obter a farinha. A nossa entrevistada refere ainda que prefere comer o camarão da água doce em relação ao da água salgada, pois este é mais saboroso.

 Numa outra conversa com o Senhor Jaime Domingos, representante do grupo Tagumanicanave, este refere que uma outra forma de preparar o caril de tépwe é com dois tipos de coco diferentes: o coco bem maduro e o coco quase ainda lanho. Os Ndaus consideram o coco bem maduro muito doce, por isso optam por adicionar o coco que ainda não está pronto ou quase lanho, segundo Jaime Domingos. Para o efeito, côa-se o coco bem maduro, cujo leite os Ndaus chamam de ndeguera (o coco que é bem maduro) e depois rala-se e côa-se o coco quase lanho num outro recipiente. A este leite de coco quase lanho os Ndaus chamam-no de guaúqua. O objectivo principal de ter-se o guaúqua é de reduzir a doçura e a densidade do caril. Adicionar ou não o guaúqua é opcional, sendo que alguns preferem cozinhar com o coco normal, o ndgeguera e os outros preferem cozinhar só com o guaúqua, o quase lanho. O Senhor Jaime alega que a maneira mais comum de cozinhar tépwe com coco é usando os dois tipos de coco, desde que a pessoa saiba como regular os diferentes leites de coco pois, quando bem acertados, o caril fica bem saboroso.

Para cozinhar o tépwe com estes leites de cocos, é necessário preparar o amendoim pilado (é opcional), o tomate, a cebola e pimento e os leites de coco (guaúqua e o ndeguera), com o próprio camarão fino fresco ou seco, mas Sr. Jaime fala que prefere o camarão seco. Após prepararem-se os ingredientes, leva-se o leite de coco bom, o ndeguera, à panela, num fogo em brasa e em seguida adiciona-se o amendoim e sal. Quando o leite de coco começar a ferver, adicionam-se o tomate, a cebola e o pimento e meche-se o caril até começar a ganhar consistência. Quando for verificada a consistência do caril, adiciona-se o tépwe e deixa-se a ferver o caril por algum tempo. Quando o caril já estiver quase pronto, adiciona-se o segundo leite de coco, o guaúqua e deixa-se a ferver até o caril cozer num fogo bem regulado para que o mesmo possa ferver com calma até estar pronto, em seguida prova-se o sal e, se estiver no ponto e se o caril já tiver cozido, pode-se retirar a panela do fogo.

O tépwe pode ser frito, para acompanhar com algum prato, pode ser usado para adicionar em um caril de verdura que na província de Sofala é vulgarmente chamada de massamba, pode-se usar para fazer um bom tocossado de camarão.

Uso do tépwe como medicamento para a alergia

A Célia Antónia explicou que para além de ser usado na culinária, o tépwe é também usado para fazer o tratamento de alergia provocada por camarão. o remedio é chamado de djima muriro em Ndau. Para preparar o remédio, o tépwe deve ser fresco, preara-se a manga verde mabeladona, a mesma deve ser cortada em rodelas, e o azeite. Em seguida lava-se o tépwe e coloca-se numa panela junto com a manga e um bocado de azeite e não se adiciona sal. Depois de misturados os ingredientes necessários, leva-se a panela ao fogo, de preferência brando e deixa-se ferver sem adicionar água até o remédio cozer. Depois de cozer deixa-se arrefecer e em seguida aplica-se no local onde tem a alergia, esfregando suavemente. Depois de passar o remedio no local, deixa-se o remedio fazer efeito por 30 minutos.

Escrito por Margarida Amadeu para Tsevele

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