tsevelelogo

terça-feira, 22 novembro 2022 20:01

Khuma, Dhota ou Etthuuurwa: os poderes mitológicos e espirituais da Cinza

Ilustração de cinzas Ilustração de cinzas

As cinzas são resíduos de combustão da lenha ou de outras matérias de origem vegetal. Designada Khuma em Citswa, Dhota na língua Cicena e Etthuuurwa em Emakwa, a cinza tem múltiplas utilidades no quotidiano do ser humano, desde os primórdios até à contemporaneidade. Por exemplo, é de domínio comum que a cinza é usada como purificadora para a lavagem das mãos. No entanto, há usos que não são do domínio da maioria, dependendo de região para região.

Em caso de um indivíduo de sexo masculino manter relações sexuais com uma mulher em fase de período menstrual, aconselha-se que misture a cinza com água, agitar e posteriormente bebê-la, para “escapar”  de "kenzdekenzde", uma complicação que se revela com o crescimento ou inchaço das bolhas dos testículos. É uma explicação dada pela vovó Ana Ngongane, de sessenta e oito anos e residente em Mangungumete, no distrito de Inhassoro na província de Inhambane.

A anciã explicou que a cinza possui esses inúmeros poderes curativos, por ser resultado de variadas espécies de plantas ou árvores, que juntadas na lareira em forma de lenha, ao arderem deixam a dhota como resto da sua combustão.

No sul de Moçambique, a cinza é igualmente bastante usada em cerimónias tradicionais de "ku tchinga xivenze", ou seja, purificação da família depois do falecimento de um dos membros.

O dirigente da cerimónia, dentre vários procedimentos, assinala com a cinza uma cruz na testa de todos os "purificados", para depois misturar a khuma com água onde igualmente todos tomam, para a sua purificação. A mesma cinza é depois colocada na comida que todos os membros comem.

Esta prática assemelha-se à “imposição de cinzas” que simboliza a vontade de cada fiel de manter-se no caminho correto do cristianismo, da sua disposição em converter-se e de reconhecimento da sua mortalidade que necessita da graça divina para perdoar os seus pecados. A prática surgiu na Igreja Primitiva e foi incorporada como um ritual sacramental da Igreja Católica por volta do século XI. As cinzas usadas na imposição são originárias dos ramos que são abençoados e queimados durante o Domingo de Ramos do ano anterior. Durante o sacramento, a autoridade religiosa faz uma cruz com as cinzas na testa da pessoa. Para isso, as cinzas são misturadas com água benta.

Outros relatos da utilidade a cinza, colhemos com Emane Antônio, um professor Makwa da Ilha de Moçambique. Ele explicou que na sua região, para além da cinza ser utilizada como material de limpeza, por exemplo, a lavagem das mãos no lugar de sabão, usa-se também nas famílias desfavorecidas como óleo.

Para obter o referido óleo, mistura-se a cinza com água. Agita-se e posteriormente com ajuda de coador de palha de coqueiro, separa se a água dos resíduos sólidos. Esta "água" que sai, é o óleo que pode ser usado para preparar alimentos.

Escrito por Amadeu Quehá para Tsevele

Anuncie