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terça-feira, 07 fevereiro 2023 15:48

N´xilo: o retrato de um objecto fiel à tradição

Representação de N´xilo Representação de N´xilo Silvino Baessa

N´xilo é um vocábulo em Emakhuwa que designa uma moageira fabricada à base de cimento, areia e pedras, normalmente com uma configuração rectangular. A moageira apresenta uma posição oblíqua por duas razões: para permitir o conforto durante o processo de moedura e facilitar o deslizamento dos cereais moídos.

A superfície da moageira (n´xilo) é áspera para possibilitar a trituração, processo auxiliado por uma pequena pedra em formato semicircular (ou de meia-lua), chamado kahani em Emakhuwa.

Os principais alimentos moídos neste instrumento convencional são, principalmente, cereais, como a mapira, e feijões, como o nhemba e,  às vezes, amendoim fresco. Tal como em inúmeras tarefas domésticas voltadas à culinária, a actividade de moedura é realizada na sua maioria por mulheres.

Uma das particularidades desta moageira é a sua capacidade de sobrevivência no tempo e contra tantos obstáculos à sua utilidade. Originalmente, a ferramenta é associada a contextos de probreza e pouca sofisticação tecnológica, visto que era frequentemente utilizada em zonas onde não havia as moageiras a diesel ou eléctricas.

Entretanto, por mais que agora as condições de moagem estejam evoluídas, a moageira aqui em referência possui um estatuto elevado em muitas regiões do interior da província de Nampula, caso dos distritos de Mecuburi, Ribáuè, Malema, Lalaua, entre outros.

Tamanha é a importância deste instrumento que a farinha destinada a cerimónias de oferenda aos antepassados – por costume a farinha de mapira – deve sempre ser moída nele e não numa moageira moderna, sob pena de comprometer o sucesso das preces, num ritual chamado “Ohela makeya”.

N´xilo como ferramenta identitária

Ainda que uma tecnologia rudimentar, a moageira (n´xilo) possui um valor imensurável, sendo considerada símbolo de pureza, uma vez que, directa ou indirectamente, viabiliza a comunicação sem ruído com os ancestrais. Isso mesmo, porque a farinha de mapira moída nesta moageira é livre de “contaminação”.

Foi o que nos contou Paulina Romão, moradora da vila de Malema. Acabada de regressar do mercado onde exerce actividade comercial, e ainda com vestígios de cansaço no semblante e voz, esclareceu o misterioso segredo por detrás da sobrevivência da nossa moageira convencional.

“N´xilo é um objecto da nossa cultura. Há quem prefere levar a mapira à moagem, mas a farinha que sai é misturada com outro tipo de farinha, de milho ou de mandioca seca. Quando é assim, não podemos usar essa farinha para pôr makeya”, explicou ela.

Segundo Paulina, apesar de a tarefa de moer tenha sido desde há muito tempo reservada à mulher, ao homem nada impede que exerça esta actividade.

Muitos parentes do marido de dona Paulina, o senhor Andrade Agostinho, dominam a arte de construção de n´xilo. O senhor Andrade, pedreiro de longa data que também possui a técnica de fabrico da moageira, admite, porém, que nos últimos dias são poucas as pessoas que utilizam a ferramenta para moer, pois a tarefa pode ser desgastante.

“Quando a quantidade do produto é grande, as pessoas já não usam n´xilo para moer, elas vão à moagem mesmo. Mas a farinha para makeya preparam em casa”, revelou Andrade, que espera que o filho um dia venha a ter a curiosidade de aprender a fabricar a moageira, como o pai fez.

Escrito por Silvino André para Tsevele

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