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terça-feira, 28 fevereiro 2023 16:38

Maciço de Ribáuè: a misteriosa fonte da vida

Serra M´phalwé, Ribáuè Serra M´phalwé, Ribáuè Silvino Baessa

O maciço de Ribáuè, formado pelas serras M´phalwé e Ribáuè, localiza-se na vila municipal de Ribáuè, província de Nampula. As formações consistem em dois inselbergues graníticos separados por um vale estreito com aproximadamente 3 Km de largura e constituído por uma floresta de miombo.

O inselbergue na região leste do maciço chama-se Monte M´phalwé e o da região ocidental, Monte Ribáuè. O primeiro tem uma elevação de 588 metros e o segundo, uma altitude estimada em 1776 metros acima do nível do mar. O cume de ambos os inselbergues é caracterizado por rochas graníticas nuas com manchas isoladas de vegetação de charneca montana.

Geologicamente, o maciço de Ribáuè faz parte da cadeia montanhosa Chire-Namuli (na Zambézia), que cruza a província de Nampula.

Falando do Monte M´phalwé – pelo significado local e nacional que detém, – a sua fama decorre, em particular, do legado histórico, por sua fonte de água mineral – a água mineral Oásis, explorada pela empresa Águas de Ribáuè Lda – e não só, mas também por estudos herpetológicos (e de natureza diversificada) ali conduzidos.

Dessas investigações, inúmeras espécies de anfíbios e répteis foram encontradas neste monte pelo herpetologista Werner Conradie, do Port Elizabeth Museum.

Segundo fontes oficiais e orais do município, é do Monte M´phalwé que nasce o nome da vila, Ribáuè, após uma pesquisa de portugueses com um grupo de nativos, na qual os pesquisadores identificaram uma gruta que despertou o seu interesse e orientaram os nativos para que a adentrassem com o intuito de investigar.

“Regressados da gruta deram a resposta aos portugueses que no interior estava ´escuro´ e nada se visualizava, dizendo o seguinte em emakhuwa: ´M´me oriipawo´, o que significa em português que lá está escuro. Daí que os portugueses passaram a escrever e a chamar de Ribáuè” (Conselho Municipal da Vila de Ribáuè).

Lugar multi-uso para os habitantes e visitantes

A Serra M´phalwé é uma área antiga de caça e de prática de agricultura familiar bastante apreciada pelos locais, na qual se cultiva milho, mandioca, banana, verduras, legumes e demais produtos. As machambas predominam no terreno baixo da montanha.

Além disso, o monte constitui fonte de grande parte do material utilizado pela população na cobertura de casas e vedação de quintais, tal como bambus e paus.

A serra alberga, inclusive, uma barragem que abastece água a milhares de habitantes da vila de Ribáuè. Esta construção, a fonte de água mineral, os animais e os ribeiros montanhosos têm atraído à Serra M´phalwé moradores do distrito e visitantes com propósitos recreativos e/ou educativos.

Dado o interesse geológico e a riqueza em biodiversidade, excursões inseridas nas disciplinas de Geografia e Biologia promovidas pela Escola Secundária de Ribáuè são, ocasionalmente, realizadas neste monte.

Para além de excursões escolares, a Serra M´phalwé tem acolhido eventos religiosos especiais, como a abertura e o encerramento de actividades juvenis anuais da paróquia distrital da igreja católica. As festividades têm tido lugar no pátio do centro de tratamento de água, alcançado a pé, de carro ou motorizada, e de onde se pode ter o panorama da vila de Ribáuè.   

Um facto marcante entre os vizinhos da montanha

Há cerca de 4 Km a noroeste da vila-sede de Ribáuè, perto da Serra M´phalwé, encontra-se a aldeia de Kithele. Aqui, um acontecimento envolvendo um grupo de aldeães fez do monte, mais do que um património natural, um lugar místico.

Décadas atrás, narram os residentes, que três jovens escalaram a montanha numa de suas rotinas normais de caça. Mas, naquele dia atípico em que os companheiros regressaram da serra, havia neles um conjunto de indicadores de algo “fora do lugar”.

Nelito Francisco vive em Kithele, onde o interpelamos na machamba. A preencher o ambiente havia uma sinfonia alentadora de chilreio (de pássaros) e o barulho dos filhos de Francisco animados em suas brincadeiras.

Segundo a fonte, a estranheza da atitude dos três caçadores foi consequência da maldição que acompanha os que fazem descobrimentos ou acham o oculto. Naquele caso, tratava-se da descoberta pelo trio da nascente de água mineral da Serra M´phalwé.       

“Desde que chegaram àquela fonte de água, eles nunca passaram muito bem de saúde. Estão todos mortos agora, os três. Até os brancos tiveram medo do lugar no início. No tempo em que eu trabalhava na Oásis [Águas de Ribáuè Lda], eu e o meu grupo vivíamos com medo porque nos mandavam acarretar água próximo à nascente”, contou a fonte, com um misto de orgulho e incredulidade no riso.

A comunidade associa a morte dos aldeães à descoberta que eles fizeram da fonte de água mineral, que aliás é a nascente do Rio Kithele, carregado de significado importante naquela aldeia ribauense, tanto quanto o Monte M´phalwé.

Escrito por Silvino André para Tsevele  

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