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terça-feira, 14 março 2023 16:18

Cacto (cactaceae): uma fonte alimentar e medicinal

Cacto, de nome científico cactaceae, é pertencente às famílias das cactáceas, vegetais que sobrevivem em lugares quentes ou áridos acumulando água em seus tecidos. São plantas suculentas cuja raiz, talo ou folhas foram dilatados para permitir o armazenamento de água em quantidades superiores às plantas normais. Cerca de 92% da sua constituição é água, daí conseguirem aguentar os ambientes em que crescem.

Existem 176 géneros e 2.275 espécies de cactos, das quais a que mais abunda em Moçambique é a designada Língua do Diabo. Várias espécies são comestíveis e outras utilizadas na decoração de casas e para o fabrico de bebidas caseiras, como é o caso da variedade Língua do Diabo.

Bebida de cacto

O distrito de Panda, na província de Inhambane, Sul de Moçambique, é um local com clima quente e árido, ambiente propício para o crescimento de cacto. Por isso mesmo, é comum a população servir-se dos frutos da planta para o fabrico de bebida caseira. Este licor é originário da localidade de Djodjo, onde é muito consumido devido à inexistência de bebidas alternativas.

Quem nos fala mais sobre a bebida é a vovó Esmeralda, idosa natural de Djodjo em Panda. Para preparar a aguardente, refere ela, os frutos são postos a fermentar em um bidão de até 210 litros, dependendo da sua quantidade, e passada uma semana, o conteúdo vai à destilação.

A destilação ocorre numa máquina de fabrico caseiro feita de material local, composto por um alambique, um tambor, no qual se depositam os frutos fermentados, e por cima deste é colocada uma panela de barro perfurada ao lado a fim de se introduzir uma das extremidades do alambique – um processo explicado neste texto sobre a produção de totonto.

O alambique, por sua vez, passa horizontalmente por um tanque de arrefecimento feito de tronco de árvore (chamado tsevele). À outra extremidade do destilador é acoplada uma pequena vara que conduz o líquido a um recipiente. “Precisa-se também de muita água”, refere a nossa entrevistada, água essa indispensável para o arrefecimento do alambique e assim garantir a continuidade de produção de vapor no destilador.

A nossa entrevistada refere que a confecção da bebida de cacto “é muito difícil em dias ventosos, porque o vento nos causa muita comichão”, havendo, desse modo, necessidade de cuidado.    

Consumo e conservação da bebida

A bebida de cacto é frequentemente consumida em ambientes festivos, conta a nossa entrevistada, e dependendo da quantidade, a sua conservação é feita em uma garrafa ou bidão, onde é capaz de ficar por um ano ou mais. A aguardente pode amargar ou não, “isso depende da mão da pessoa que manuesea”, diz a fonte. Entretanto, “muitos gostam daquela que amarga, e a que não amarga pode cair mal, até porque as pessoas não compram”, acrescenta.

Uma opção medicinal

Para além de ser útil na alimentação e para o fabrico de licor caseiro, os frutos de cacto são de grande valor na medicina para o tratamento de anemia. Quem nos fala mais a respeito é a dona Cacilda, natural e residente na província de Inhambane. Para servir-se desta planta como remédio, removem-se os espinhos em volta do fruto, que é depois descascado, pilado e por fim coado.

“O remédio é muito eficaz, repõe o sangue rapidamente”, assegura a dona Cacilda. “Quando tomas uma grande porção, podes chegar a ter sangue o bastante que seja necessário diminuir. E mesmo que a pessoa esteja pálida de anemia, o remédio resolve”. O medicamento pode ser tomado minutos depois de produzido e a administração implica a toma em uma colher de chá por dois dias só. “Não amarga mas é muito potente”, reitera a nossa entrevistada.

A espécie de cacto sem espinhos, por seu turno, tem utilidade no tratamento de tosse resistente e, para tal, as folhas da planta são raspadas e fervidas, sendo que a mistura é tomada por até quatro dias.

Escrito por Vanila Amadeu para Tsevele

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