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terça-feira, 18 abril 2023 14:34

N´ganda: celebrando o sucesso através da dança

dançarinos de N´ganda dançarinos de N´ganda Silvino André

Moçambique é conhecido por sua diversidade cultural e artística, como na música e na dança. Do norte ao sul, o passado, as conquistas e os feitos da população são por vezes recordados através de manifestações públicas de dança.

Na nortenha província do Niassa, n´ganda é uma dessas danças cuja riqueza em significado histórico e cultural é ainda hoje celebrada pelo povo em diversas ocasiões e situações, tais como cerimónias civis ou outros momentos julgados oportunos pela comunidade.

Em nyanja ou chewa – um dos idiomas falados no Niassa –, o termo n´ganda tem duplo significado: o primeiro é que a palavra quer dizer “gule wa malipenga” (dança das cabaças) e o segundo tem a ver com a designação da dança propriamente dita e o rufar do principal tambor de n´ganda, o bombo ou ng´oma.

N´ganda é uma dança de expressão da alegria da população pelos sucessos na colheita e no campo de batalha. O seu valor cultural, no entanto, excede o mero aspecto comemorativo.

N´ganda é um património artístico-cultural por meio do qual são promovidos e fortalecidos valores benéficos na sociedade, como o espírito de comunhão, unidade étnica, hospitalidade, familiaridade e amizade.

Através da dança são do mesmo modo veiculadas mensagens de desestímulo de algumas práticas sociais condenáveis, nomeadamente o roubo e maus tratos às mulheres por parte dos homens.

Histórico de n´ganda

N´ganda é uma dança tradicional do Niassa oriunda do distrito do Lago, descrita como identitária do povo nyanja da região do Lago Niassa.

Tubias Capaina conta, por outro lado, que n´ganda tem origem no nordeste do Malawi e que é originalmente uma manifestação típica do povo Tonga do distrito de Nkhata Bay. Segundo a fonte, a dança teria sido apropriada e popularizada pelos nyanjas como resultado da forte convivência entre os dois povos.

Afonso David João, natural do distrito do Lago e fundador de um grupo de dança n´ganda com maior actuação na Cidade de Maputo, traz-nos os detalhes do surgimento desta histórica dança.

Segundo o entrevistado, n´ganda nasce na zona de Nkhamanga, em Mzuzu, na Região Norte do Malawi. A transferência para Moçambique, exactamente ao distrito do Lago, Posto Administrativo de Lunho, localidade de Messumba, explica a fonte, foi da responsabilidade de Samuel Assane, viajante que, em 1919, encontrou a população a dançar n´ganda naquela zona malawiana e ficou impressionado.

Posteriormente, em 1922, Samuel Assane criou o primeiro grupo de dança n´ganda no território nacional, chamado Porto Amélia, que opera até agora. Graças à influência desta entidade pioneira outros grupos surgiram, os mesmos que têm participado de diferentes concursos inter-regionais a nível do distrito do Lago e da província. 

Apesar de ser vinculada aos nyanjas, n´ganda tem igualmente a presença expandida entre os yaos, também do Niassa. Mas, segundo Afonso João, na comunidade yao, n´ganda tornou-se pouco frequente de 2005 para cá.

Fazendo referência a motivos religiosos, o entrevistado reiterou que n´ganda é mesmo típica dos nyanjas – anglicanos e católicos – e que a dança predominante entre os yaos, muçulmanos, é Siriki.  

No círculo yao, n´ganda servia no passado para dar as boas-vindas ao rei Mataka durante as visitas que efectuava às aldeias sob seu domínio. Tubias Capaina sustenta que o uso da dança tinha também a finalidade de comunicação de infortúnios ou de reuniões importantes nas aldeias.

Várias fontes indicam que a dança é exclusivamente masculina. De acordo com Ranito Chiboa, natural da Cidade de Lichinga – que já foi praticante de n´ganda na adolescência –, normalmente há grupos de dança hierarquizados em faixas etárias, ou seja, grupos de adolescentes, jovens e velhos, sendo esta última a camada mais predominante de dançarinos.

Entretanto, outras fontes referem que, no posto administrativo de Maniamba, distrito do Lago, há um tipo de n´ganda chamado nzulubi que inclui mulheres no elenco, praticado por ambos nyanjas e yaos da região.

Uma dança festiva enraizada na guerra

N´ganda tem uma forte ligação histórica a contextos de guerra. A dança desenvolveu-se no século XX, ao longo das duas grandes Guerras Mundiais. Não apenas isso, dentro do País era frequentemente praticada nas zonas libertadas, no contexto da Guerra de Libertação Nacional. A dança teve um papel preponderante na mobilização popular durante esse período.

Contudo, há relatos da presença de n´ganda em festivais internacionais, como o Festival Pan-africano na Argélia e na Tunísia, em 1968 e 1969, e o Festival Mundial da Juventude e Estudantes na antiga República Democrática Alemã ou Alemanha Oriental, conforme refere Carlos Siliya. 

Além de em tempos n´ganda ter-se apresentado em festivais de renome, o entrevistado Ranito Chiboa diz que a dança tem sido ainda hoje praticada em competições intradistritais no Lago, provinciais no Niassa e em concursos internacionais, realizados no Malawi.

No distrito do Lago, concretamente, a população organiza-se entre os meses de Junho à Outubro de modo a comemorar os resultados satisfatórios na colheita, resgatando a essência desta “dança da felicidade”, como denomina Afonso João.

“As competições de n´ganda começam em junho e vão até outubro, quando se fecha a colheita. Cada grupo competidor tem uns dias reservados para a sua apresentação. É um momento de alegria e felicidade em que formamos novas famílias”, confessou o entrevistado.

Instrumentos musicais de n´ganda

Os instrumentos musicais de n´ganda são, basicamente, tambores e cabaças (vigubu ou malipenga) de diferentes tamanhos e timbres. Tubias Capaina destaca, dentre eles, um tambor grande (ng´oma ou bombo), tamboretes (kamplekete), baquetas (m´phila), chocalhos (vitchatcha), enxadas (vingwangwa) e bengalas (sitiki).

De acordo com o entrevistado Afonso João, existem quatro (4) tipos de instrumentos que auxiliam na dança n´ganda, a saber: tambor grande (bombo ou ng´oma) cabaça, flauta e cadência, que produz sons agudos e acompanha o bombo. A cabaça, por sua vez, é acompanhada pela flauta.

A fonte explica que, durante a execução de n´ganda, os dançarinos da primeira fila tocam as cabaças e os da última, as flautas, enquanto um grupo separado toca o bombo e outros tamboretes.

Execução da dança e o visual dos praticantes

Na dança n´ganda, os dançarinos posicionam-se em quatro (4) filas, sendo a primeira e segunda formada pelos mais velhos, a terceira e quarta, por jovens. O conjunto move-se em passos sincronizados em vários sentidos, guiados pela melodia dos distintos instrumentos musicais.

Acredita-se que os movimentos dos dançarinos de n´ganda sejam inspirados na participação do povo nyanja em treinamentos militares ao lado de seus colonizadores na Primeira Guerra Mundial.

Segundo Afonso João, numa demonstração normal, os dançarinos podem chegar aos 40 ou 50. Mas em celebrações especiais, como cerimónias civis, nos festivais, feriados, recepções de visitas governamentais, etc., o número é reduzido para o máximo de 20 praticantes.

Os dançarinos vestem-se todos de branco – principalmente camisas de mangas curtas e calções –, gravatas e meias vermelhas. O líder do grupo (o maestro), porém, diz João Afonso, traja-se de calças e camisa de mangas compridas.

A fonte acrescenta que o vestuário branco foi imposto pelos colonos, que gostavam da dança e integraram-na ao circuito religioso cristão.

Outros artigos que perfazem a indumentária são: chapéus de papelão branco improvisados com vista a imitar um quepe marinheiro, panos (vermelhos ou brancos) que os dançarinos seguram e agitam durante a exibição; uma pena artificial comprida (também vermelha ou branca) que é prendida verticalmente à cabeça, e uma faixa longa de tecido vermelho que passa do ombro direito ao quadril esquerdo.

Escrito por Silvino André para Tsevele

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