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terça-feira, 30 maio 2023 18:34

Ophampara ou Otikiniha: um tradicional “santuário” bantu

Montes Erati Montes Erati

A existência no mundo, em África em especial, de locais tradicionalmente sagrados e a invocação dos antepassados acompanham a sociedade desde os tempos antigos, movida por uma crença cultural de que os mortos sejam intercessores entre Deus e os vivos. Diante disso, espalhados por Moçambique, especificamente na região norte encontram-se santuários locais onde se vai à procura de melhores condições de vida, como um bom emprego, saúde em abundância, uma boa esposa, um bom esposo, boa colheita, muito dinheiro, compra de uma viatura, expansão de negócios, protecção, etc.

Em Nampula e Cabo Delgado a população chama esses lugares de preces de “Ophampara” ou “Otikiniha”, em língua emakhuwa, traduzindo-se para o português como “local de pedidos especiais através da superstição”. Na província de Nampula, o mais conhecido é o Monte Erati e em Cabo Delgado, o Monte Namuno.

Conta-se que são sítios ao mesmo tempo misteriosos e perigosos, razão pela qual as pessoas hesitam em falar a respeito por medo de retaliação dos espíritos.

Otikiniha, além de significar mistério ou algo inexplicável com base na inteligência humana, é um lugar sagrado que possui algumas exigências e também replecto de situações e seres incomuns.

Segundo as declarações de alguns frequentadores de ophampara, não é qualquer pessoa que vai a este santuário para rogar pela melhoria da condição de vida. A entrada é permitida àqueles livres de inveja, ódio ou outro sentimento negativo parecido. Nunca as pessoas que tenham cometido assassinato e feito aborto devem visitar visto que a vingança dos espíritos contra elas é extremamente violenta.

Relata-se que ophampara ou otikiniha habitam criaturas muito estranhas, animais sem cabeça (cobras, lagartos, macacos, entre outras) e vozes humanas sem presença física. Os animais agem diferente dos demais da mesma espécie encontrados noutros lugares, comportando-se por vezes de forma humana.

De acordo com os nossos entrevistados, antes de entrar na caverna, passa-se pelos animais a fim de se provar a pureza dos visitantes. Em relação às pessoas que tiverem ido a ophampara cheias dos sentimentos negativos acima mencionados ou tenham praticado algum mal contra o próximo, os macacos reagem por meio de porradas ou então as pessoas sofrem um ataque de enxame.

Durante a realização das súplicas, contam as testemunhas, escutam-se vozes que questionam às pessoas as razões dos pedidos e qual será a retribuição assim que as preces tiverem sido atendidas.

No fim da cerimónia, o súplice é entregue um objecto que lhe servirá de lembrete para voltar a ophampara com a intenção de agradecer pelo sucesso alcançado, com base na promessa feita no acto da prece. Em caso de incumprimento do prometido, a pessoa perde a riqueza ou o sucesso e vive numa situação ainda mais deplorável que antes de ter ido a ophampara.

Escrito por Emanuel Mahira para Tsevele

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