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terça-feira, 06 junho 2023 14:45

De Lhambankulu à Chamanculo: a história, a fama e o triunfo da arte

De Lhambankulu à Chamanculo: a história, a fama e o triunfo da arte Joanna Mawai

Chamanculo é um bairro localizado na periferia do leste da capital moçambicana, no distrito de Nlhamankulu. Tem habitantes oriundos de diversos pontos do país, maioritariamente da tribo Tsonga, falantes do Xichangana, Xirhonga e Cicopi.

É um dos bairros indígenas da antiga Lourenço Marques, primeiramente chamado Lhambankulu devido à presença da água parada na actual Praça 16 de Junho. Na época colonial, os portugueses que ali habitavam não souberam assimilar o nome original e passaram a chamar Chamanculo.

O bairro carrega uma história ligada à época de ocupação efectiva dos portugueses. No entanto, os portugueses tiveram dificuldades em colonizar verdadeiramente o povo ali estabelecido, que até hoje se mantém em grande medida fiel aos seus costumes, crenças e à diversidade cultural da tribo Tsonga.

As casas rústicas de zinco são a própria marca de Chamanculo, o chamariz e um indicativo de que se trata de edifícios antigos. Porém, com a civilização, algumas famílias estão a migrar para casas feitas de blocos.

Para Amélia Albino Carlos, moradora local vão mais de trinta anos, Chamanculo costumava ser há muito tempo muito calmo e organizado, não havia a divisão em quarteirões e havia, em contrapartida, muita burocracia para fazer parte do bairro.

“Não era qualquer pessoa que vivia aqui. Para ter uma casa de bloco precisava ter um papel que o reconhecesse como assimilado e para pessoas oriundas de outras províncias, era necessário também ter um guia ou outros papéis para poderem viver aqui. Mas quando a FRELIMO entrou, as coisas mudaram”, contou dona Amélia.

A fonte acrescentou que Chamanculo era um bairro que valia a pena viver. Os habitantes tinham a oportunidade de estudar, ir à igreja e tinham um talho muito movimentado, no actual Mutxopi.

A maior parte dos cidadãos desta periferia são de classe baixa e, embora Chamanculo esteja próximo ao centro da Cidade de Maputo, o bairro é conhecido popularmente pela mendicidade e bandidagem. “Aqui não se dorme, há muitas barracas, tocam música toda hora e há muita prostituição por parte das mulheres”, sublinhou a dona Amélia Albino Carlos.

Em Chamanculo não se passa de uma ruela sem que se depare um aglomerado de gente. Há predominância de consumo de bebidas caseiras e a mais consumida é a fermentada Uputsu (mistura de farinha de milho e handzelo). 

Maria Beatriz vive no bairro desde o tempo colonial e, como alguns residentes, ganha a vida a produzir esta bebida caseira. “Cresci a fazer Uputsu, foi o meu negócio. Pilava, moía e vendia. Mas hoje em dia existem novas bebidas que assustam”, explicou a fonte.

O negócio caseiro é que sustenta a maior parte das famílias, e as crianças ajudam os pais nos pequenos negócios, para o sustento doméstico e escolar. Algumas mulheres vendem pastéis de feijão nyemba, vulgo badjias, verduras, hortaliças, carvão, roupas usadas – Xicalamidade, etc.

A arte no gueto

Apesar da conotação à criminalidade, Chamanculo é um bairro histórico de onde nasceram figuras que elevaram e elevam o País, como é o caso da Menina de Ouro, Lurdes Mutola, Joaquim Macuácua, Marcelino dos Santos, Jimmy Dlhudlhu, etc.

“Chamanculo é visto como um ninho de malfeitores, drogados e ladrões, pelo perigo em alguns becos”, diz a poeta e visitante do bairro, Marlen Daizy, “mas há jovens que fazem de tudo para que esta casa seja vista com bons olhos”.

E uma das formas de limpar a imagem negativa que se tem do bairro é através da arte nas suas várias expressões. A arte tem sido um refúgio criado para que adolescentes e jovens em Chamanculo se distanciem de maus caminhos.

Logo à entrada ao bairro, é possível ver muros, casas e outras infra-estruturas pintadas a cores vivas, iniciativa de diferentes movimentos com o objectivo de garantir a inclusão social a nível daquela zona.

Assim, há nesta área da Cidade de Maputo vários grupos socioculturais engajados nessa causa, como a ASSCODECHA e o “Chamanculo é Vida”, um projecto que pretende, dentre muitos motivos, enriquecer o bairro com cores e criar um ambiente de confraternização.

O movimento “Chamanculo é Vida” foi criado pela estudante e activista cultural, Cecília Mahumane, com o propósito de mostrar o outro lado da periferia, o gueto. O grupo protagoniza eventos culturais e dá a oportunidade aos moradores de terem acesso de forma gratuita, por exemplo, ao cinema, peças teatrais, saraus de poesia, dança e muito mais.

“Pretendemos mostrar o outro lado do gueto. Pelo conceito já estabelecido do bairro, pretendemos mudar essa visão. Preparamos visitas guiadas para fotografar o bairro e desmistificar a ideia que se tem das periferias,” explicou Cecília Mahumane, sublinhando o êxito do movimento, que recebe visitas nacionais e internacionais.

Refira-se que um dos pontos que atraem visitantes a Chamanculo é a residência de Joaquim Macuácua, sempre aberta para receber artistas e indivíduos de diferentes pontos do país e do mundo. 

Escrito por Joanna Mawai para Tsevele

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