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terça-feira, 20 junho 2023 13:33

Mukalampa: preservando os heróis da família

Imagem meramente ilustrativa Imagem meramente ilustrativa

Mukalampa (ou Makalampa) é uma expressão da língua emakhuwa que designa a cerimónia de atribuição do nome de um antepassado a um outro membro vivo da família. É uma prática que ocorre com muita frequência na região norte de Moçambique, concretamente na província de Nampula, para honrar um homem ou uma mulher que desempenhava um papel muito importante para a família.  Essa importância tem a ver seja pelos feitos da pessoa ou pelo cargo que exercia, daí a necessidade de preservação e valorização do seu nome. O nome de alguém de grande valor para a família, nas comunidades rurais da província de Nampula é entendido como transmissor de uma mensagem mais do que uma simples etiqueta posta sobre a cabeça do indivíduo.

Acredita-se que dar o nome de um ancestral (falecido) a um membro vivo da família permite que esse ancestral retorne ou reencarne no novo detentor do nome. Os nomes são atribuídos aos recém-nascidos, onde os primogénitos recebem o nome do avô paterno e as primogénitas, o da avó materna.

Os mais velhos referem que a cerimónia de mukalampa expressa um reconhecimento simbólico do heroísmo dos antepassados, reconhecendo-se o herói como um homem extraordinário pelas suas capacidades de unificação da família, dos membros da comunidade, e pelas suas qualidades guerreiras.

Mukalampa acontece na cerimónia de quaresma do falecido. Escolhe-se de surpresa um membro da família que possa assumir o nome, geralmente um primo do finado.

Nos últimos anos, esta prática tem vindo a perder espaço no seio das famílias e alguns apontam factores como a globalização, influência de algumas congregações religiosas que proíbem a prática de cerimónias tradicionais e até mesmo a dispersão das famílias.

Apesar disso há famílias conservadoras que fazem de tudo para que mukalampa não seja extinta ou desprezada, porque a extinção dessa cerimónia, acreditam os mais velhos, pode levar a família ao fracasso ou mesmo à maldição.

Dize-se que antigamente, a pessoa que assumia o nome do antepassado não podia viver longe da família, uma vez que passava a pertencer ao órgão de tomada de decisões dentro da linhagem.

As famílias acreditam que os antepassados contribuem de forma significativa para a resolução ou não de problemas que as afligem. Assim, um dos papéis do herdeiro do nome é o de pôr farinha no acto de invocação dos antepassados (localmente chamado de makeya). A crença é de que o “sucessor” facilmente consegue comunicar-se com o dono do nome.

De referir que é através da prática da cerimónia de mukalampa que os nomes dos líderes tradicionais (chamados em emakhuwa por humu, régule, pwiyamwene, mpewe, etc.) são mantidos até hoje, num gesto de imortalização dos tidos como heróis da família.

Escrito por Ganito Bantaleão para Tsevele

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