tsevelelogo

terça-feira, 27 junho 2023 14:39

Lingoti: o amuleto da longevidade

amuleto lingoti amuleto lingoti Amadeu Queha

A vida nas sociedades africanas, e, em particular moçambicanas, esteve sempre ligada ao mundo mitológico, envolvendo procedimentos ou práticas que dão garantias de vida plena às pessoas. Os indivíduos recorrem aos espíritos para protecção contra o mal, para garantir a longevidade, poder, sorte nos afazeres, estabilização no lar e outros fins.

Dos vários métodos de defesa praticados como, por exemplo, o “Kutlhavelwa”, encontramos o amuleto mágico “Kubhohiwa Lingoti”, uma forma de tratamento tradicional adoptada por indivíduos de ambos os sexos para fortalecer e tornar imune o corpo à forças espirituais alheias, garantindo a longevidade ou imortalidade.

O Kubhohiwa Lingoti é feito sob orientação de um curandeiro especializado e consiste num conjunto de fios ou pequenas cordas baptizadas por espíritos. É nessas cordas onde se consagra todo o poder e honra que o espírito cuidador detém para zelar pela vida do seu cliente.

O acto da consagração de lingoti

A cerimónia de consagração de lingoti é conhecida por “Kugingelwa”. Neste acto, dependendo do nível e peso do amuleto, o cliente oferece animais como sacrifício, onde o sangue destes firma e sela o pacto entre o animal, o vivo e os espíritos. Trata-se, assim, de um pacto entre os vivos e os mortos através de espíritos que agem a favor ou contra indivíduos. 

Os animais sacrificados são, na maioria das vezes, bodes, galos e até bois, todos machos por serem os mais apropriados, segundo a crença. Por vezes se chega a usar sangue humano, alguns oferecendo a vida de seu filho, pai, irmão ou de outro parente que seja da família directa.

Não só, as despesas para a aquisição do lingoti envolvem outras modalidades de troca como dinheiro, bebidas, e também crianças são oferecidas como garantias.   

O portador do amuleto renova infindavelmente o ciclo de vida do talismã junto do seu curandeiro através de procedimentos semelhantes à cerimónia de consagração inicial, onde se oferece sangue animal ou humano como sacrifício.

Deve-se sempre portar o amuleto. Uns penduram disfarçadamente no pescoço ou no antebraço e, nesses casos, envolve-se o lingoti em objectos de mosaico ou outros que escondam a real aparência do mesmo. Outras pessoas, para evitarem a exposição, penduram o amuleto em zonas privadas do corpo, como a cintura. Porém, encontra-se ainda os que preferem portar no estômago, ou seja, engolem-no para não deixar vestígios de desconfiança.

Os efeitos peculiares da imortalidade

Diz-se que viver torna-se penoso nos últimos dias de vida do portador de lingoti. Nessas circunstâncias, a regra geral é que o amuleto volte ao médico tradicional assim que o cliente perder a vida.

Em caso de o curandeiro igualmente ter morrido, os seus descendentes tratam de receber todos os clientes do falecido que, por meio de um ritual restrito, comunicam ao morto a devolução do talismã e anunciam o pagamento final para a destruição do pacto.

Aos indivíduos que portarem o lingoti dentro do corpo, a regra é que, enquanto doentes, possam expelir o amuleto na presença de um círculo restrito de familiares. É da responsabilidade do familiar confidente guardar o amuleto.

Aos que trazem o lingoti em alguma parte externa do corpo, ainda em fase terminal da doença, o familiar mais chegado do doente remove o amuleto, que irá em seguida devolver ao curandeiro de origem. 

Caso o proprietário morra com o lingoti, solicita-se o seu curandeiro ou um diferente que seja aceite pelos espíritos do amuleto a fim de fazer o morto expelir o mesmo. Há casos em que o proprietário é enterrado com um amuleto consagrado a espíritos muito fortes. Nessa situação, o cadáver é desenterrado para, igualmente, o fazer expelir o lingoti.

Segundo Afonso Laquene, médico tradicional radicado em Nova Mambone, distrito de Govuro, em Inhambane, uma das suspeitas de que o indivíduo possua um lingoti dentro de si é o facto de, mesmo em estado bastante crítico de doença, a sua morte tardar a ser consumada. Somente expulso o amuleto de dentro do organismo é que o indivíduo perde a vida.

O nosso entrevistado sublinha a necessidade de uma reflexão cuidadosa antes de adquirir o amuleto “Kutsema lingoti” por conta da rigorosidade de suas exigências. Laquene refere que, desobedecidas as condições, os mesmos espíritos consagrados para a protecção da pessoa podem voltar-se contra ela, numa sucessão de azar severo que afecta o indivíduo e a sua família, chamada “khombo”.    

Escrito por Amadeu Quehá para Tsevele

Anuncie