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terça-feira, 01 agosto 2023 15:08

Kutsameliwa ou kutsamiwa: a misteriosa doença e a resposta da medicina tradicional

Kutsameliwa é uma doença que abrange maioritariamente as mulheres e consiste na saída de uma “veia” ou carninha no períneo (região entre os órgãos genitais e o ânus) que é responsável pela interrupção de gravidez e morte prematura dos bebés que a mulher venha a ter.

A pequena carne em si é também designada kutsameliwa ou kutsamiwa, sendo um problema que existe desde há várias gerações. São muitas as versões sobre a sua origem.

Uns apontam factores hereditários, alguns dizem tratar-se de um mal feito para a pessoa e outros alegam que se transmite através do contacto físico ou pela simples menção da palavra. Num outro extremo, estão os que afirmam ser “coisa de tradição” e reiteram a importância da remoção de kutsameliwa de modo a salvaguardar a gravidez e evitar a morte dos bebés.

O problema manifesta-se exclusivamente nos períodos antes, durante e depois da gravidez. Antes da gravidez, a mulher começa a sentir comichão no períneo, e a seguir surge a referida carne. Durante a gestação, a mulher sofre um aborto espontâneo e depois da gravidez, caso o bebé nasça, dois factos podem verificar-se:  ou ele vive por um curto período de tempo ou até a mãe conceber outra vez. 

O tratamento de kutsameliwa é meramente tradicional, podendo ser mediado por um curandeiro ou alguém experiente em mexer com remédios tradicionais. É feito antes da e/ou durante a gravidez. Após o diagnóstico pelo curandeiro, a mulher leva uma capulana própria que nunca mais usará, uma lâmina e alguns itens para o sacrifício, como a galinha, para a operação. 

 De acordo com os nossos entrevistados, o médico tradicional que realiza o procedimento deve ser experiente, caso contrário, a carninha sempre voltará. Por sua vez, a mulher deve ficar alguns dias sem ingerir certos alimentos nem manter relações sexuais e deve cumprir a prescrição dada com vista a eliminar o “bicho” que mata as crianças.

Deolinda Queco, de 70 anos de idade, é curandeira e conta que faz o tratamento da doença desde 1983. “Se a mulher estiver grávida, a carninha bate o bebé e ocorre o aborto espontâneo. Tendo esta doença, ela não pode ter filhos,” explicou a anciã. “No hospital convencional não tratam o kutsameliwa, só tradicionalmente. Há remédios próprios para aplicar, recomendar e um lugar próprio para cortar”, acrescentou, esclarecendo ainda que os homens podem, da mesma forma, ser atormentados pelo mal, que se desenvolve entre os testículos.

A vovó Deolinda contou que kutsameliwa ataca, em sua maioria, mulheres da província de Inhambane, localmente chamada a doença Xihetangamo – o que significa algo que acaba com os bebés se não for curado.

Kutsameliwa a partir de várias experiências

As consequências de kutsameliwa não se limitam somente no conceber. Segundo Hortência Jamine, de 52 anos de idade, há também características ligadas ao “azar” na mulher, pois “esta doença estraga a sorte, a mulher não permanece no lar”, referiu a fonte, mãe de três filhos que perdeu outros três e enfrentou imensas dificuldades para conceber no primeiro casamento.

Tendo conseguido engravidar no segundo casamento, Hortência teve prematuramente a criança (com sete meses), mas faleceu dois dias depois. Não foi muito diferente na gravidez seguinte, com sete meses a criança nasceu e, três meses depois, perdeu a vida. A sucessão desses acontecimentos fez com que a família notasse que havia um problema e, após vários tratamentos malsucedidos, encontraram um curandeiro que a cuidou.

Dona Hortência diz ter sentido na pele os efeitos de kutsameliwa, representados como desestabilização doméstica. “Pode fazer com que a mulher sinta nojo do homem, crie confusões sem motivo aparente e não tenha vontade de permanecer no lar”, revelou, com a cara franzida. A entrevistada disse que não sente mais dores e a comichão, embora o medo que ficou enraizado.    

Por se tratar de um assunto ligado à sexualidade feminina, não é abordado abertamente no seio familiar. Algumas mulheres só descobrem o mal (kutsameliwa) quando perdem a primeira gravidez.

Foi esse o caso da Clotilde Bata, nome fictício, de 26 anos. Ela, por razões fora de sua compreensão, não podia até mencionar o termo, conforme contou: “Cresci sem saber o que era, só escutava as pessoas a dizerem que era uma palavra que não se podia falar assim do nada, pois a doença passava de uma pessoa para a outra.” 

A história da Lola Bernadete, nome também fictício, é similar à de Clotilde. Nascida e crescida em uma família religiosa, Lola conta que até sentiu os sintomas da doença antes de contrair o matrimónio, mas por medo e falta de conhecimento, não perguntou a ninguém.

“Descobri quando estava grávida”, disse, acrescentando que viveu por algum período sem saber o que era. “O meu pai ficou preocupado quando perdi o bebé em um mês.” Foi daí que Lola ficou a saber do verdadeiro tratamento de kutsameliwa, o tradicional, após o qual voltou a conceber. Hoje, a sua filha tem sete meses de idade. “O tratamento passou, mas o que ficou foi o medo,” confessou ela.

Uma mulher, actualmente mãe – cuja identidade não será revelada – sofria abortos espontâneos recorrentes toda vez que tentasse engravidar. Depois de várias consultas médicas que terminavam sem explicações palpáveis, a mulher soube através da família de que se tratava de kutsameliwa, problema do qual suspeitava mas tinha receio de agir recorrendo a meios tradicionais devido a restrições religiosas.

“Eu sentia tudo o que eles diziam, a comichão e algo a sair lá atrás, mas também eu tinha medo de quebrar as regras da igreja”, confidenciou. Hoje em dia, contudo, é mais fácil ouvir as pessoas a falarem desse problema abertamente na sociedade.

Escrito por Joanna Mawai para Tsevele

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