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terça-feira, 15 setembro 2020 22:37

Galango ou Khalango: A panela que acompanha a história dos moçambicanos

Galango ou panela de barro Galango ou panela de barro

Khalango, Galango, Guicalango, ou Nikhalago, dependendo da região, é nome da panela de fabrico caseiro com base no barro ou argila, cuja origem remonta desde os tempos da expansão dos povos Bantu (povos habitantes da região sul do Sahara , por volta do segundo milénio antes de Cristo).
Fizemos uma viagem até à, ao encontro damamã Celeste, acompanhados pelo chilrear dos pássaros que de árvore em árvore pousavam, transmitindo-nos mensagem de boas vindas.


Mamã Celeste António Huo, residente na região de Chichocane, no extremo Sul do distrito de Vilankulo, é uma nativa de sessenta e quatro anos de idade, cujo semblante denuncia a hospitalidade e gentileza de que a terra da boa gente é característica. Ela nos acompanha neste rebuscar da nossa história, ainda presente na vida dos Moçambicanos.
O fabrico de Khalango, segundo explicou a nossa fonte, é uma prática que faz parte do seu quotidiano desde menor.
Mamã Celeste, contou-nos que há naquela região, uma planície chamada Wumbeni, que quer dizer, no barreiro, de onde se busca esta matéria-prima em quantidades, aliás, segundo a nossa interlocutora, naquela planície, há barro que basta.
Mas afinal quais são para além do barro, os outros artefactos necessários para o fabrico de Khalango?
Para o fabrico de Khalango, o modelo africano de panela mais antigo e transportado até aos dias de hoje através de gerações, é necessário que tenhamos barro ou argila, ínfimas porções obtidas a partir de restos de khalango pilados, uma carapuça de ostra ou na falta desta, fruto tambeira, ou ainda, cafuro de coco, um prato de fabrico artesanal com base na madeira onde se estendem folhas frescas de bananeira.
Reunido o material necessário para o fabrico de Khalango, segue-se a fase do fabrico.
Primeiro leva-se o barro manualmente, coloca-se num recipiente e depois adiciona-se água, processo que se faz com objectivo de tirar as impurezas-restos de raízes, pedrinhas e outras substâncias, para garantir uma melhor elasticidade do barro.
Depois mistura-se o barro ou argila, com ínfimas porções obtidas a partir de restos de Khalango moídos, amassa-se até compactar.
Depois, estende-se folhas frescas de bananeira no prato para conferir maior conforto ao barro.
Leva-se o barro manualmente para o prato, primeiro levantam-se as paredes, e, leva-se a likatha, fazendo passar este ligeiramente pelas paredes do Khalango em construção, para garantir que a superfície esteja lisa.
Deixa-se secar durante um a dois dias, sem entretanto tirar do prato onde esta assentado. Posto isso, e depois de verificar que o barro secou o suficiente para não se destruir, vira-se o Khalango em construção, com o prato por cima. Tira-se o prato para a fase seguinte, que é a modelagem da parte superior ou da base da Panela.
Molda-se cuidadosamente, a base do Khalango, de modo a fechar ou complementar as paredes da panela. Posto isso e a panela estando ainda virada, deixa-se ao sol durante um ou dois dias, para secar a base do Khalango. E assim termina o fabrico do Khalango, contudo, ainda é prematuro começar com a sua utilização.
Depois de o Khalango estar totalmente seco, segue-se a fase da queima para garantir maior resistência e durabilidade. O processo repete-se durante uma semana e depois disso o Khalango pode já ser utilizado.
Entretanto, para utilizar o Khalango pela primeira vez, enche-se de água e põe-se a ferver, até a água esgotar. Uma acção que segundo a mamã Celeste, serve como treinamento da panela.
Esta panela constitui um dos mais antigos utensílios fabricados a partir desta matéria-prima localmente disponível, havendo mulheres e homens que têm naquela actividade o garante do seu sustento, à medida em que eles conseguem fabricar e vender. Acredita-se que comida confeccionada no Khalango é mais saborosa em relação á da panela convencional.
Após retirar o khalango do fogo, a comida continua a ferver por mais cerca de quinze minutos.
O Khalango, é sem dúvidas, uma identidade cultural, que agora pode ser explorado sob ponto de vista turístico.

Escrito por Amadeu Queha para Tsevele

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