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terça-feira, 15 setembro 2020 22:35

Rio dos Bons Sinais: O rio das Esperanças

Rio dos bons sinais Rio dos bons sinais

Caminhar sobre as ruas quentes da cidade de Quelimane sem ter que passar pela avenida Marginal, uma rua que se situa na margem norte do histórico “rio dos bons sinais” é como ler um livro sem ter apreciado a “introdução”, pois, da margem norte do rio dos bons sinais, é o Rio dos Bons Sinais que introduz geograficamente a cidade de Quelimane.

O histórico “rio dos bons sinais”, localiza-se entre a capital provincial da Zambézia, Quelimane e o distrito de Inhassunge. Nasce da confluência dos rios Lua-Lua e Quá-Quá e o seu curso passa naquela urbe cerca de 20 Km antes de desaguar no Oceano Índico.

De acordo com o Sr. Plácido Monteiro, ancião de 75 anos de idade, residente na cidade de Quelimane, no bairro de Torrone Velho, um dos mais antigos e renomado bairro daquela urbe, antes da chegada dos Portugueses a Moçambique, o histórico rio que actualmente é conhecido por “ Rio dos bons sinais”, era localmente chamado de “rio Quá-Quá”, uma designação a partir de duas palavras da língua Echuabo. Na perspectiva do ancião, a expressão “Quá-Quá”, quando traduzida para a língua portuguesa não possui um significado directo, pois, o nome surge devido às actividades que eram efectuadas naquele rio e da massiva concentração de patos, nas suas margens, e por conta do barulho efectuado pelos patos, foi atribuído o nome “Quá-Quá”.
Em Janeiro de 1498, viu-se o alvorecer da esperança de um navegador português, que parecia ser traído pela bússola ao aportar pela primeira vez na foz do rio “Quá-Quá”, parecia um simples aportar, pois, graças àquela paragem em nome do descanso, o navegador obteve informações sobre onde poderia encontrar alguém que os guiasse até a Índia. Assim, o navegador português, Vasco da Gama, denominou aquele lugar de “rio dos bons sinais”, por ter sido o local onde lhe foi devolvida a esperança de um dia chegar à Índia.

De acordo com o historiador e pesquisador Passaga, o rio dos “bons sinais”, após a chegada de Vasco da Gama e a sua comitiva, em 1498, tornou-se um centro comercial bastante atractivo para os povos swahilis, que se instalavam na margem norte do rio, onde criaram o centro de concentração de escravos naquela urbe, actualmente, Escola Secundária Geral Patrice Lumumba. O historiador acrescenta que , naquele período, os portugueses estavam de passagem para a Índia, porém, devido a concentração de alguns povos e da atracção comercial que o local tornou-se, foi registada a presença permanente dos portugueses em 1544 tornando-se os principais dominadores daquela urbe.

O rio dos “Bons sinais” passou a ser o canal de entrada e saída das caravelas portuguesas que transportavam escravos para as colónias portuguesas, espanholas e britânicas nas Américas. O porto de Quelimane que se situa na margem norte do rio dos bons sinais passou a ser o principal entreposto comercial português nesta província, facilitando o comércio de escravos, marfim e especiarias entre os portugueses e os povos nativos da Zambézia. As actividades comerciais que estavam ligadas ao porto de Quelimane, em 1763 deram origem a vila, actualmente cidade de Quelimane.
A população que se fixou na vila, actual cidade de Quelimane, é resultado do cruzamento de vários grupos étnicos, desde os nativos, originários da região junto ao rio dos bons sinais (distrito de Inhassunge e da região de Maquival) e povos oriundos dos distritos de Nicoadala, Namacurra e escravos oriundos da alta Zambézia (Alto-Molocué, Gilé, Ile, Namarroi), bem como portugueses, goeses dando origem ao grupo étnico actualmente designado Machuabo.

Nos tempos que correm, o “Rio dos Bons sinais” serve de via de acesso para o distrito de Inhassunge e Chinde, e das suas ricas águas, muitas famílias subsistem, praticando a actividade pesqueira, para além de ser um canal que ajuda nas divisas da província, através do porto de Quelimane, que se situa na margem norte do rio.
Se ontem o Rio dos rio dos bons sinais representou a esperança para o navegador português, hoje, para além de ser um elemento histórico que ajuda a contar a história e vivência dos moçambicanos, serve também de esperança para aqueles que o têm ora como fonte de sobrevivência ora como meio de acesso a outras pessoas.

Escrito por Conde Condelaque para Tsevele.

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