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terça-feira, 15 setembro 2020 22:47

O mito das Njonji: as Sereias de Magaruque em Vilankulo

Sereia ou sirena é uma figura presente na crença local do povo de Magaruque referindo-se a uma representação feminina que vive nas águas do mar, capaz de enfeitiçar os homens para junto delas. Na região de Magaruque as sereias são conhecidas por njhonji.


Estes seres sobrenaturais, representadas na mitologia grega, como seres que continham o corpo de um pássaro e a delicadeza de uma mulher, ao longo do tempo, transfiguram-se na Idade Média em mulheres metade peixe, até aos dias de hoje.
Na zona marítima que compreende os distritos de Vilankulo e Inhassoro, no sul de Moçambique, (na região do parque Nacional do Arquipélago de Bazaruto, constituído por quatro ilhas), é frequente os pescadores visualizarem sinais destes seres mitológicos segundo conta Phandeia Buene, um ilhéu de Magaruque com setenta e três anos de idade.

Segundo a nossa fonte, as sereias habitam naquela zona, no meio das águas mais profundas, entre rochas. Phandeia diz que as sereias representam a força divina.

De acordo com o nosso entrevistado, por volta de 1917 um indivíduo chamado Magaruluque Zivane viu de perto uma sereia naquela ilha, do qual derivou o actual nome da Ilha-Magaruque.

Segundo a crença dos Ilhéus, as sereias cantavam com tanta doçura que atraíam os tripulantes dos navios que passavam por ali durante os tempos da penetração estrangeira, para estes colidirem com os rochedos e afundarem. Isto acontecia quando as sereias ficassem zangadas por algum motivo. Aliás, elas, como deusas do mar, sempre que precisam estabelecer uma comunicação com as pessoas é com base em manifestações extremas como ventos fortes acompanhando gigantes ondas, disse Phandeia.

A nossa fonte, disse que indivíduos desaparecem em situações misteriosas, levados pelas sereias para serem ensinados curandeirismo. Estes indivíduos classificados como "escolhidos", permanecem no habitat das sereias por mais de dez anos até que fiquem prontos e suficientemente preparados para curar qualquer tipo de doença.

Ao longo deste tempo, o indivíduo toma a vida das sereias, passando a alimentar-se de peixe cru e outros produtos do mar. Chegado o dia de regresso do indivíduo levado pelas sereias, os familiares são comunicados através de sonhos e outros sinais mágicos que os orientam a procurar um médico tradicional especializado na área. É este curandeiro que juntamente com os familiares do indivíduo, vão à praia, para através de procedimentos próprios começarem com a cerimônia de resgate.
É uma cerimônia que pode durar entre seis à oito dias de intensa actividade de devoção do espírito do Deus do mar.

Cantos e danças ao som de batuques e outros artefactos são executados de modo que as sereias consigam perceber a comunicação e trazerem o indivíduo até à margem, preparando-lhe material de trabalho num saco para que o indivíduo comece a trabalhar.

De acordo com Phandeia, quando o indivíduo está próximo, sentem-se sinais extremos como ventos fortes e chuviscos por volta do local onde decorre a cerimônia de resgate. E logo que o temporal abranda, o indivíduo aparecerá como que arrastado pelas ondas do mar, sem forças, mudo, e totalmente amarrotado com cabelos compridos. Ao ver o indivíduo, é proibido exclamar ou admirar sob o risco de as sereias o levarem de volta.

Escrito por Amadeu Quehá para Tsevele

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