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terça-feira, 29 setembro 2020 18:29

Munhazi ou Ntona: uma relíquia gastronómica do povo Chope

Munhazi ou ntona Munhazi ou ntona

Munhazi em língua Citswa, Ntona em língua Cicope (ou XiChope, ou simplesmente Chope), é azeite de Mafurra uma fruta silvestre consumida sobretudo na zona sul de Moçambique, entre os meses de Dezembro à Março. O ntona ou munhazi é uma referência infalível e obrigatória na gastronomia do povo machope. Os machopes são uma etnia que habita predominantemente os distritos de Inharrime e Zavala, província de Inhambane, e uma parte do norte de Gaza, na zona sul de Moçambique.

O processo da transformação da mafurra em óleo começa, segundo conta Margarida Chihanhe, uma idosa Machope de 62 anos, com a apanha da mafurra. Esta pode ser apanhada no chão ou arrancada na árvore depois de madura, que posteriormente deverá ser deixada exposta ao sol por pelo menos dois dias, até secar. “Posto isto, a mesma deverá ser conservada por dois meses, em uma esteira de caniço, a qual é desinada entre os machopes por cithati. Aqui, a mafurra deverá ser mantida em ambiente fresco e seco”, explica a senhora Margarida.

Passado este período, chega-se a fase da transformação da mafurra. Neste momento peneira-se a mafurra, para separá-la dos possíveis resíduos que possam ter sido misturados aquando da apanha do fruto. Depois de separá-la dos resíduos, coloca-se o conteúdo num recipiente, podendo ser um bidão ou um objecto de barro. Neste, deverá colocar-se água suficiente para cobrir a mafurra. Depois de coberta, a mafurra pela água, o recipiente com o conteúdo deverá ser coberto com folhas de mafurreira, que servirá como a tampa do recipiente.

Margarida refere que um dia e meio é o período durante o qual a mafurra deverá ficar na água, para que possa amolecer o suficiente. Feito isto, tira-se o conteúdo e coloca-se no cithati (local onde a mafurra ficou dois meses conservado), no qual deverá ficar cerca de 45 minutos para escorrer a água. Enquanto isso, organizam-se peneira, bacia, água e um coador, este último que “de preferência deverá ser um cesto em chope designado por cirema, pois facilita o processo”. Passados os 45 minutos, tira-se a mafurra para a peneira para amassar com as mãos. Depois de bem amassada, põe-se numa bacia, na qual se deverá pôr água suficiente que permita que, depois de misturada, a pasta fique com uma espessura densa.

Finalizado o processo, separa-se o conteúdo das sementes, estas que deverão ser esmagadas novamente para que se possa explorar todo o seu conteúdo externo. Passa-se então para a fase em que deverá ser coada a pasta numa panela de barro ou de alumínio, para separar o conteúdo a ser usado para o óleo do bagaço da mafurra. A nossa entrevistada menciona que antigamente se tinha preferência por panela de barro, pois permitia uma fervura mais lenta e consequentemente, mais óleo.

A esta altura, já é momento de fazer o fogo, que deve ser preferencialmente de lenha. Com o fogo aceso, coloca-se a panela neste que se deverá manter intenso até que o conteúdo atinja o ponto de fervura. Cerca de vinte minutos depois de começar a ferver deverá se reduzir ligeiramente a intensidade do fogo, para que a fervura seja mais lenta. Neste momento o óleo de mafurra já deverá estar à vista. Estando o óleo à vista, deverá usar-se uma colher de pau para extrair o ntona da panela, este que deverá ser cautelosamente tirado com a infalível discriminação do bagaço da mafurra, pois uma gota que seja do bagaço, é suficiente para comprometer a conservação do produto final. O óleo é posteriormente colocado em uma panela de barro para arrefecer, na qual se deverá pôr uma pitada de sal que, segundo refere a Sra. Chihanhe, ajuda para que o óleo não seque no tempo de frio.

Para a conservação do óleo de mafurra, aconselha-se que seja colocado em um recipiente de vidro limpo e seco, e guardado fora do alcance da luz. Nestas condições, Magarida afirma que o ntona pode durar até três anos.

O consumo
A sra. Margarida Chihanhe refere que não há limitações quanto à utilidade alimentar do óleo de mafurra. Podendo ser consumido com mandioca cozida, qualquer tipo de carne assada, com a excepção da carde de porco, devido ao ser alto teor de gordura, ou ainda Feijão Nyemba simples misturado apenas com ntona. Carlos Amadeu, machope de sessenta e nove anos, refere que “o ntona realça o sabor dos alimentos aos quais é misturado, tornando-os mais apetecíveis para o consumo”.

Curiosidades
A produção do óleo de mafurra no caso, é acompanhada por alguns tabus. Conforme a nossa entrevistada refere, são factos que podem ser verificados por qualquer um. Entre os tabus está o que refere que:

  • Há que ter cautela em relação às pessoas que vão participar da produção do óleo de mafurra, pois, segundo refere Margarida, uma mulher menstruada ou que se envolveu em acto sexual há poucas horas da preparação do óleo, se participara na produção do ntona, a sua extracção fracassa;
  • Existe ainda o que ela chama de “não ter mão para fazer óleo de mafurra”, o que significa que há pessoas que são naturalmente desabilitadas a produzir o alimento. Segundo Margarida, isto acontece não porque as pessoas visadas não possam cumprir rigorosamente com as medidas exigidas, mas porque quando chega a altura de colocar a panela no fogo para extracção do óleo, este simplesmente não sai. Este é o caso da Margarida, que sempre que pretende produzir o óleo, conta com a ajuda das filhas para pôr as panelas no fogo;
  • A quantidade do óleo a ser extraído da panela não depende da quantidade da mafurra amassada, mas do que Margarida chama de “mão de cada um”.

Escrito por Vanila Amadeu para Tsevele

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