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terça-feira, 13 outubro 2020 18:55

Dança TUFO: do simbolismo ao encanto

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A dança Tufo (em Português) ou ETHUFU em língua Enahara, uma variação linguística da língua emakwa, é uma dança tradicional do norte de norte de Moçambique, praticada especialmente nas zonas costeiras de Angoche, Ilha de Moçambique, Pemba e Ibo. A dança carrega consigo um simbolismo de cultura, por meio da sua coreografia, trajes típicas da zona norte do País, a famosa capulana das mulheres macuas, as quais a chamam EKHUWO.

Executada por grupos de mulheres, a dança é de origem Árabe-islâmica e esteve sempre ligada à celebrações de festivais islâmicos e feriados. Acredita-se que a dança começou aquando da migração do Profeta Maomé para Medina. Ele terá sido recebido pelos seus seguidores com canções e danças de louvor à Deus, acompanhadas por pandeiros. Tendo sido aprovada pelo Profeta, a dança passou a ser praticada em festivais religiosos (Gacim, 2008: 13).

O Tufo terá chegado à Moçambique por volta de 1930, trazido por um técnico de Kilwa chamado Yussuf (Gacim, 2008). O nome provavelmente deriva do árabe, devido aos tamborins e címbalos utilizados na dança, ad-Duff. Esta palavra se tornou adufe ou adufo em Português, e mais tarde Tufo.
A dança também foi fortemente influenciada pela cultura matrilinear Makhuwa, apesar de suas origens muçulmanas, Tufo se espalhou para além das comunidades e do contexto de Islão. Apesar de ainda ser realizada em festas religiosas, músicas Tufo também podem conter temas sociais e políticos (Gacim, 2008).

Com base nas declarações de uma das dançarinas e fundadoras do Tufo da Ilha de Moçambique, Mamã Fátima (KOSHUKURU ACUMIM- Associação Cultural das Mulheres da Ilha de Moçambique), historicamente o Tufo era praticado por dançarinos de ambos os sexos, mas ultimamente os homens geralmente só dançam em raras ocasiões. Os grupos de dançarinos de Tufo variam de 15-20 mulheres, e são acompanhadas por quatro homens ou mulheres na bateria, pandeiro, bem planas. Todos os bailarinos, cantam, embora geralmente conduzidos por cantores vogais.

Mamã Fátima afirma que tradicionalmente, os dançarinos de Tufo, executavam a dança ajoelhados e ritmicamente movendo as metades superiores de seus corpos. Mas, recentemente a coreografia do Tufo evoluiu, tal que os dançarinos podem levantar e mover os seus corpos inteiros. As canções do Tufo são transmitidos por via oral e podem ser compostos por um dos dançarinos e/ou por um poeta do grupo. Elas são geralmente na língua Emakhuwa, mas também podem ser em Árabe ou Português. Os dançarinos usam lenços e capulanas, que são um tipo de harmonização sarongue feito de pano impresso brilhantemente colorido. Cada dança exige uma nova capulana e deve simbolizar o festival religioso e/ou um feriado.

Mamã Fátima, como é carinhosamente tratada, recorda a história da dança Tufo como parte da história da própria Ilha de Moçambique e encarna os mais profundos valores dos ilhéus: “nos tempos idos, os árabes costumavam parar aqui na ilha e sempre dançavam e cantavam na língua deles. Tocavam com panelas, porque naquela altura não havia batuques. Mesmo sem entender o que se dizia nas canções, os ilhéus viam as canções como uma forma de socializção, uma forma para esquecer os problemas ou de passar certas mensagens. Então, nessa altura reuniram-se algumas pessoas com um Chehe (líder religioso) e concluíram que aquela dança e os cânticos deveriam ser apresentados em momentos festivos como o nascimento de uma criança ou casamentos. Assim surgiu a dança do Tufo, para acompanhar os momentos comemorativos”.

Tufo significa, por isso, uma profunda alegria, segundo explica a Mamã Fátima, membro da ACUMIM, que acrescenta "antigamente, quando um dos líderes muçulmanos saísse de Meca para Medina, enviavam as dançarinas do tufo para recebê-lo”.

 

Escrito por Emanuel Mahira para Tsevele

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