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terça-feira, 15 dezembro 2020 20:13

Kondossano: uma homenagem aos herós (Nharingas) anónimos

Monumento ao Kondossano Monumento ao Kondossano

Kondossano é um lugar histórico localizado na província da Zambézia, concretamente no distrito da Maganja da Costa, 200km da cidade capital Quelimane. O local é usado para a realização de cerimónias tradicionais dirigidas por autoridades tradicionais locais, muitas vezes acompanhadas por autoridades governamentais.

A origem do Kondossano é controversa e muito complexa pelo facto do seu estudo basear-se unicamente na tradição oral. Assim, existem duas teorias que explicam a sua origem.

A primeira teoria defende que Kondossano é uma palavra de origem Nhungue que significa (guerra é vossa) ou seja Ngondo (guerra), sano ( vossa). Segundo esta teoria, o nome provém do processo de lutas de conquistas e de alargamento de território por Namulugu nas regiões de Mabala, cerca de 25km da vila. Nesta batalha, segundo a tradição oral, um comandante militar de origem nhungue ainda desconhecido e um dos seus guarda-costas foram gravemente feridos. Usando os poderes mágico-tradicionais e religiosos acredita-se que este teria voado para as proximidades do lago Ruguria em busca de apoio espiritual para a salvação da sua vida. Sem forças suficientes, caiu e entalou-se na copa de uma frondosa árvore, onde tardiamente viera a ser retirado pela população local.

O moribundo já em agonia, deixou um recado na sua língua à população presente (Ngondo Sano) o que pode-se entender que o guerrilheiro pretendia incentivar a população de modo a levar avante o processo de luta, mostrando claramente ter cumprido seu papel.

Momentos depois teria chegado o seu guarda costa a procura do seu comandante, acabando também por morrer. Assim, os dois guerrilheiros foram ali enterrados inaugurando deste modo o cemitério do Kondossano. Hoje pode-se observar no local a existência de alguns instrumentos de guerra já em estado de deterioração, carecendo de um estudo arqueológico.

A segunda teoria defende que o nome Kondossano deriva da composição Kondo (guerra) ossano (chefia) que traduzido literalmente significa local a partir do qual se comanda a guerra. De acordo com a tradição oral, a magia e a crença nos espíritos dos antepassados levou a que os nharingas ( nativos da Maganja da Costa) procurassem desde cedo um lugar específico para a realização dos seus cultos para invocar as chuvas, o poder militar, acima de tudo, a vida.

Os principais cultos eram os de Mbona, Muave e Mkhafara. Tratava-se de um lugar sagrado onde se realizavam as cerimónias e se reunia o exército. Pelo carácter sagrado, era guardado por um indivíduo designado por Mulinda. Este, era considerado um sonhador, espécie de um profeta, que se comunicava com os espíritos dos antepassados revelando às populações informações sobre as ocorrências e prováveis soluções.

Para anunciar as informações, Mulinda contava com três batuques, cada um com som específico de acordo com a natureza da informação (entre informações de natureza militar, calamidades e prosperidade). Para evitar os males, se realizavam cerimónias, sendo as principais o Mucutho e Mkhafara. Acreditava-se também que qualquer pedido efectuado no Kondossano era aceite e o sinal de aceitação era a chuva.

Portanto, Kondossano desempenha dupla importância histórica dos nharingas. Primeiro, como local sagrado de adoração, onde se concentravam todos aspectos da vida, e posteriormente, como cemitério onde repousam os seus antepassados fundadores da Maganja.

Por essa razão, Kondossano é hoje o centro histórico do povo local, em reconhecimento do papel e da importância que Kondossano sempre representou e representa na vida económica, política e sócio-cultural. Por isso, os nharingas até hoje realizam anualmente cerimónias no local, invocando protecção contra vários problemas que os assolam no seu dia-a-dia. Como afirma o senhor Namingana, um ancião local, “nharingas somos nós, não esperemos que venha alguém de fora e nos mostre e nos ensine a nossa própria história. Sabemos bem o que é nosso, dos nossos antepassados. Os nossos filhos aprendem de nós e assim ficará a nossa história até ao último nharinga”.

Escrito por Edmilson Mucuala para Tsevele

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