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terça-feira, 09 março 2021 08:44

Xexenga: uma planta, várias soluções medicinais

Tabernaemontana elegans ou xexenga Tabernaemontana elegans ou xexenga

Xexenga é o nome de uma planta nativa moçambicana que abunda no distrito de Vilankulo, concretamente na região de Macunhe. Cientificamente conhecida por "Tabernaemontana elegans", esta planta possui múltiplos usos e, é
de extrema importância para as comunidades locais, moçambicanas.

Viajámos até à zona de Macunhe, um povoado situado no distrito de Vilankulo, sul de
Moçambique, para conversar com a avó Marta, uma anciã de sessenta e um anos, cuja aparência física denuncia uma larga experiência de vida, particularmente, no domínio de plantas medicinais. Carinhosamente tratada por vovó Massihahu, ela constitui uma referência na região por ser conhecedora de uma variedade de plantas medicinais, da qual a Xexenga faz parte.

Vovó Massihahu recebeu-nos, em sua modesta casa, visivelmente honrada. Sobre uma esteira de "mawungu", sentamo-nos para receber os cumprimentos de boas vindas, num ambiente hospitaleiro, característico dos moçambicanos. Enquanto recebia as boas vindas, o meu olhar permanecia fixo na vovó Massihahu, que nos fazia viajar pela estrada tempo. Observando a sua rugosa face, fui percebendo como os nativos curavam-se das várias enfermidades, desde os tempos remotos, antes da chegada da medicina convencional.

A conversa começou, e vovó Massihahu era aquela que apesar da relativa timidez, respondia às questões, completando-as com o aceno da sua sábia cabeça envolvida num lenço negro, adereço que comunicava o facto de ela ser viúva. Nossa entrevistada começou por pedir às novas gerações para que dessem continuidade à sua
obra, usando as plantas para curar, purificar e dar sorte.

O fruto
Vovó Massihahu explicou que a Xexenga, concebe um fruto, que chama-se Ci Xexenga. É rugoso, de cor cinzenta de um tamanho inferior a uma massala. Quando amadurece, abre-se como uma vagem e expõe as suas sementes cobertas por uma camada carnuda, alaranjada, atraente e comestível para os humanos.

Estas sementes, são particularmente apreciadas pelas aves (o madhekele é uma das aves que adora estes frutos). Algumas mulheres, ao dar a luz por via cirúrgica, a dita cesariana, e estando o leite a atrasar dias
para sair, o fruto desta planta tem ajudado muito, bastando para o efeito, gotejar o seu líquido nos mamilos da mulher. Depois, lavam-se os mamilos com água e sabão, para garantir a limpeza destes. O leite materno desce logo, em menos de 10 minutos, assegurou vovó Massihahu.

Os meninos, prossegui a vovó Massihahu, usam Ci Xexenga, para atrair aves ou passarinhos às armadilhas, devido o seu brilho e doçura. Ci Xexenga, o fruto da Xexenga, também é usado pelos pastores (principalmente de cabritos) para, segundo a crença, uma cabra passar a parir gêmeos, acelerando assim a multiplicação da espécie. Contam ser isso possível através de uma cerimônia simples em que, a placenta de uma cabra que acaba de parir, é usada para envolver dois frutos gêmeos da Xexenga e, o "arranjo' é depois enterrado no "mahanzakanyi"- entroncamento de caminhos.

Mas como disse antes a vovó Massihahu, esta planta é de múltiplo uso, os seus ramos são usados para fazer fisgas, por se apresentarem em forma de forquilha -"Y".

As folhas
As suas folhas são usadas em armadilhas para ratazanas (mabonhane) chamada “ci bangwa” para proteger o milho. As folhas de Xexenga fervidas servem para acelerar partos. São usadas na forma de bafos ou "ku woreketa". Esta, é uma prática usual até aos dias de hoje, principalmente, em zonas
longínquas onde não há um posto de saúde.

A raiz
A raiz pode ser usada localmente para tratar problemas de vista (wu kohani). A raiz é esmagada, no processo extrai-se um líquido que é colocado numa simples gota, na mucosa ocular. Aqui, é preciso ter muita atenção, pois basta só uma gotinha, sob risco de causar cegueira se a aplicação for em excesso.

O caule
O caule de Xexenga, possui um floema que tem um revestimento interno que, em Xitswa chama-se Kalhwani. Deste revestimento, pode se produzir uma fibra que fica com o aspecto de linhas que, são usadas em volta do pé, braço ou pescoço, funcionando como repelente de azar (makhombo), purificando o indivíduo em todas suas andanças, enfatizou a nossa fonte.

Esta espécie de pulseira de Kalhwani funciona como amuleto que, purifica quem o usa, como é o caso da pessoa "quente”, ou seja, alguém que acaba de ter relações sexuais. Esta pessoa, por exemplo, segundo a tradição local, não pode aproximar-se e tocar num recém nascido ou em alguém que acaba de fazer circuncisão, ou ainda a alguém com uma ferida,sob pena de criar problemas a essas pessoas. Mas se o ''quente' estiver protegido, usando o Kalhwani, nada de mal acontecerá.

Se alguém contrair um ferimento, sem o uso desta corda/pulseira em volta do pé, braço ou pescoço, a ferida leva muito tempo a curar e, pode ser fatal, de acordo com a experiência da vovó Massihahu.

Após um parto, as “masungukates” (anciãs), tratam logo de proteger o recém nascido com a pulseira da imunidade; nunca se sabe que comportamento terá tido o pai ou outras pessoas que desejem tocar no bebé (podem estar "quentes" - "a munhu wa ku hisa") e de algum modo possam afectar, negativamente, a saúde da criança.
Este procedimento, é feito igualmente à mãe do bebé, para garantir a rápida recuperação das sequelas do parto, principalmente se este tiver sido cesariana.

A vovó Massihahu, explicou que, devido à importância de Xexenga, a sua comunidade preserva-a, tentando transmitir à actuais gerações o seu valor medicinal. Durante a abertura dos campos agrícolas, os camponeses abatem muitas plantas,mas protegem e poupam menos a Xexenga, como forma de perpetuar a espécie e assim, garantir curativo por gerações.

 

Escrito por Amadeu Quehá para Tsevele

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