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Alvo Ofumane

Alvo Ofumane

Este conto não se trata de uma pesquisa científica, mas sim de uma experiência empírica vivida pelo autor, foi uma mera coincidência como foi a vez da cigarra. Tem se dito que algumas formigas são predadoras das vespas, sobretudo as crias na fase de reprodução. Outra versão diz que o pássaro tem sido alimento das formigas depois da morte, outras vezes os pássaros são predadores de vespas e das formigas. Isso pode ser uma tradução de “ouvir dizer”. Mas, o que eu vi e provei depois de ouvir é o seguinte:

O Grande Hotel foi um hotel de luxo localizado na cidade da Beira, segunda maior cidade de Moçambique, na província de Sofala. O mesmo localiza-se na Avenida Mateus Sansão Muthemba a quinze minutos do centro da cidade. A festa da sua inauguração foi realizada no ano de 1954. Esteve funcional entre os anos de 1955 e 1963. Após esse período, continuou sendo utilizado durante a década de 1960 como um centro de conferências.

A província de Inhambane possui palmares que se estendem de Zandamela a Save, seus limites a sul e norte respectivamente. Localizada a sul de Moçambique, é a província com o segundo maior coqueiral ou cocal do país, perdendo apenas para a província da Zambézia, no centro de Moçambique. O coqueiro, uma das suas principais plantas, tem interminável utilidade. Nela aproveitam-se as raízes para tratamento de dor de dente e não só; o caule e as folhas para extrair material de construção; para além do próprio fruto, o coco, que é bastante usado na culinária de Inhambane e em outras províncias do país. A sua utilidade não termina por aí.

Segundo o avô Munawaara de 82 anos, há muito, muito tempo, na zona onde hoje se chama de Namicopo, havia uma comunidade que vivia nas montanhas a noroeste e enfrentava problemas para ocupar aquelas terras férteis para a agricultura e habitação, devido aos mistérios que aconteciam naquela zona.

A/O Fuma é um tipo de Molina produzido com base em "tihwakwa" - sementes dos frutos da planta silvestre denominada kwakwa ou makuakua, da família Leguminaceae, da espécie Strychnos inocua Del, originária de Moçambique.

O Museu Regional de Inhambane é uma instituição pública, de carácter científico e cultural, vocacionada para a preservação, conservação e divulgação do património histórico-cultural da província de Inhambane e Gaza. Entre os objectivos do Museu constam adquirir, registar, documentar, conservar, expor e colocar à disposição do público os dados e colecções aos seu dispor. Consta também das responsabilidades do Museu, representar a realidade local na multiplicidade de seus aspectos.

terça-feira, 21 setembro 2021 15:18

Mutothowana: imortalizando os heróis de Muecate

Logo à entrada da vila sede do distrito de Muecate, vindo da cidade de Nampula ou vila de Namialo, um grande monumento chama atenção. Trata-se do heroico monumento Mutothowana.

 É das árvores mais abundantes no sul de Moçambique e exerce grande importância na vida de diversas famílias residentes nas províncias de Maputo, Gaza e Inhambane. Também conhecida como Nkulho (nas línguas locais das regiões supramencionadas), a Mafurreira (tratada cientificamente por Trichilia Emetica) é uma planta da família das Meliáceas de folha perene, originária de África Ocidental.

O nome genérico desta planta (Trichilia) vem do termo grego ‘‘tricho’’, referindo-se a frutos de 3 lóbulos e ‘‘emetica’’ refere-se às propriedades eméticas da árvore. Pode ser encontrada nas florestas abertas da região austral africana, sobretudo em Moçambique, mas também no Senegal, Serra Leoa, Alto Nilo, Abissínia (Etiópia), Madagáscar, Reunião, na África do Sul.

Apresenta características peculiares, tais como uma longevidade que excede os 25 anos de existência, altura variável dos 20 aos 35 metros, é frondosa e de formato piramidal, tem folhas de cor verde escura brilhante, frutos que se confundem com as sementes e caule acinzentado, de interior avermelhado, que apresenta aspecto circular.

Possui muitas valências, podendo-se aproveitar todas as suas partes, e seus derivados, para vários fins. Vale lembrar que, por força de diversos factores, a Mafurreira, e suas partes constitutivas, não são dadas a mesma importância ao longo do território nacional. Mostramos, a seguir, as diferentes aplicações da Mafurreira na zona sul do país.

Folhas protectoras
Uma das partes da Mafurreira que mais chama atenção são as suas numerosas folhas. Apresentam uma coloração verde escura e brilhante, lados exactamente iguais e formato de elipse, figura que pode ser obtida quando se estica dois pontos opostos de uma circunferência.

Elas também possuem diversas aplicações. Todas elas consistem na protecção e combate à enfermidades. Por exemplo, acredita-se que a fricção das folhas da Mafurreira junto a pele pode eliminar borbulhas, bem como proteger este órgão de doenças. Além disso, o cheiro das folhas, quando piladas, é usado para reanimar pessoas desmaiadas ou estado de inconsciência.

Uma infusão quente destas folhas é também utilizada como loção calmante sobre contusões ou como uma mistura para a tosse.
Em tempos mais remotos, as folhas da Mafurreira eram usadas como insecticidas, sobretudo para afugentar mosquitos durante a noite. Elas eram colocadas, ainda frescas, em contacto com a lenha ou carvão ardente, durante as tradicionais conversas a volta da fogueira, libertando fumaça pesada que espanta insectos voadores.

O Caule
O caule da Mafurreira é um dos traços identitários desta planta. O seu aspecto é inconfundível. Esta componente é acompanhada de diversos usos, a semelhança das outras partes da árvore. É coberto de lascas que se acredita serem úteis para o tratamento de cabelo. Quando fervidos, os fragmentos do caule da Mafurreira oferecem um shampoo que é capaz de combater a praga de piolhos, segundo relatos dos moradores da região sul do país.

Outra utilidade das ‘‘cascas’’ do caule da Mafurreira é a produção de esculturas em ornamentos, móveis e utensílios domésticos. Conta-se, ainda, que no século XIX a casca do caule de Mafurreira foi utilizada pelos povos Nguni para a preparação de navios, bem como para alívio de dores nas costas e dores renais.

Um outro aspecto, não menos importante, é a utilidade dos galhos, como também do próprio caule, como lenha. Pela particularidade de ser um caule rijo, a lenha da Mafurreira é mais resistente, criando chamas mais ardentes, o que acelera o preparo de alimentos.

Um fruto de várias faces
A Mafura (em português), Ukulho (em Citswa/Xitswa) e Tihulho (em Cichangana) é o nome atribuído ao do fruto da Mafurreira. Aliás, o nome atribuído à árvore (Mafurreira) deriva do seu fruto (a Mafura).

Trata-se de uma semente (de cor, tamanho e sabor variáveis e de uso industrial) consumida maioritariamente no sul de Moçambique. Cresce envolvida por uma pasta que se rompe na fase do amadurecimento. Os frutos da Mafurra apresentam cor encarnada e, por vezes, branca, dependendo da espécie, quando estiverem prontos para a colheita. Este fruto é aproveitável na globalidade, pelo facto de ser possível aproveitar todos os seus componentes (polpa e semente) para fins relacionados à culinária, comércio e consumo caseiro.

Nas onde a é amolecido em água (geralmente quente), para que se possa extrair a sua polpa e misturá-la ao açúcar e água, morna ou gelada, ao seu gosto, formando um sumo multivitamínico com alto valor nutritivo e propriedades anti-inflamatórias.

O fruto da Mafurreira possui importância económica, sobretudo para as populações residentes ao longo da Estrada Nacional Número 1 (EN1), na região sul do país, onde é comumente comercializado para o consumo familiar. Do fruto, é extraído a sua polpa, para o consumo caseiro, são produzidos o Munhantsi e Xibhé (das línguas locais) e ambos usuais para o comércio e alimentação.

O óleo da Mafura: um azeite tradicional
Conhecido como Munhazi, Munhantsi ou ntona (nas línguas locais), o óleo de Mafurra é produzido a partir dos frutos secos que, depois de maduros, vão caindo sobre o solo.

Felismina Langa é natural da vila de Manjacaze, província de Gaza. Reside, há cerca de 40 anos, no bairro de Magoanine A, nos arredores da Cidade de Maputo. A idosa de 80 anos de idade conta que já passa muito tempo que não se faz ao fogão com o intuito de preparar o Munhansti, ainda assim revela que a receita não lhe sai da memória. A dona de casa e mãe de sete (7) filhos revela que cedo aprendeu e, logo, aperfeiçoou a técnica de produção do óleo ou azeite de Mafura e descreveu, passo a passo, o processo de produção do Munhansti.

A dona Felismina explica que tudo começa quando o fruto da Mafurra amadurece, ou seja, o seu invólucro se rompe. De seguida, é arrancado da árvore, ou apanhado do chão (quando já tiver caído), e posto a secar ao sol, estendido em sacos. Esta etapa leva uma semana, no máximo, dependendo das condições climatéricas, pois, em dias de calor intenso, pode levar, apenas, três dias. A seguir, os frutos, já secos, são lavados, em água morna, antes de serem recolocados na água, desta feita a temperatura ambiente, por cerca de dois dias.

Ao terceiro dia, a Mafurra é transferida para um recipiente em que seja possível que a água, a mesma onde as sementes foram mergulhadas nos dois dias anteriores, possa escorrer pela base. Este é, na verdade, um processo que tem como fim a lavagem da Mafurra, para depois ser esmagada, usando as mãos, ainda dentro do utensílio com furos, uma vez que a polpa já se encontra amolecida, a esta altura.

Nesta fase, prossegue a dona Felismina, a massa formada pela polpa amolecida e esmagada é separada das sementes e mergulhada em água e colocada ao fogo. Quando o composto atinge o ponto de ebulição, explica, surgem, dentro do recipiente, duas camadas distintas. Sendo a primeira (a líquida) que fica por cima e segunda (da massa) por baixo.

Depois de ferver, a mistura é tirada do fogo e posta para arrefecer. E quando já estiver fresco, o conteúdo continua dividido em duas camadas, sendo a do líquido (o azeite), ainda na parte de cima, e a dos restos da polpa por baixo.

O óleo é removido com recurso a uma caneca, ou qualquer utensílio domestico que desempenhe tais funções, e conservado em garrafas de vidro envolvidas por sacos plásticos. E o que sobra no recipiente, a polpa, é compactada e colocada a secar, formando o saboroso Xibhé. Matéria da qual é preparado um carril na base de amendoim e coco, que pose ser servida acompanhada de Xima ou arroz, peixe (seco, frito ou cozido) e outras carnes.

A dona Felismina sublinhou que o Munhantsi é, verdadeiramente, um azeite natural, que é comummente consumido como acompanhante de pratos como frango, alface e mandioca.

Além do uso alimentar, o Munhantsi é aproveitado na vertente farmacológica. A fonte conta que o azeite natural produzido a partir da mafurra sirva para aliviar anginas, localmente conhecidas como ‘‘Mathoyissa’’ (feridas na garganta).

Em África, tudo pode ser remédio
Também apreciador das riquezas naturais do país, o Senhor Mulungo fala da importância da Mafurreira e seus derivados na vida das populações da margem sul do rio Save. Já idoso, o Sr. Mulungo nasceu em Chibuto, província de Gaza, e reside, actualmente, na Cidade de Maputo.

Ao longo dos seus 84 anos, Mulungo vivenciou várias situações e experimentou diversos sabores, tendo chegado a conclusão de que ‘‘em África, não há nada que não seja remédio’’, buscando chamar a atenção para o estudo e exploração das riquezas naturais do continente negro pelos próprios africanos.

Sobre o tema em voga, o nosso entrevistado sublinha que a Mafurreira era vista, nos períodos mais distantes, como uma fonte de vida. Ele ressalta que antes da expansão da rede de hospitais, bem como em regiões onde é difícil o acesso aos serviços de saúde, a Mafurreira desempenha a função de analgésico, sendo as suas folhas usadas para aliviar dores e contusões, após traumas ou situações de choque ou quebra de ossos. Além disso, Mulungo conta que as folhas da Mafurreira, quando fervidas, são usadas para aliviar febres, através do bafo.

O bafo com as folhas da Mafurreira tem múltiplas vantagens, segundo o Sr. Mulungo. Narra o idoso que a nossa pele absorve bactérias, ao longo das actividades diárias. Tais bactérias são removidas, através do contacto da pele com o vapor das folhas da Mafurreira, proporcionando uma renovação vital, na medida em que melhora a respiração. Alias, também o Munhantsi ajuda nas questões da respiração das crianças. De acordo com o Sr. Mulungo, colocar gotas de azeite de azeite de mafurra dentro das narinas dos petizes resolve possíveis problemas respiratórios.

O Sr. Mulungo não para por aí. Explica que o suco que brota as folhas da mafurreira, quando mastigadas, é capaz de resolver dores de estômago.

O caule era usado, igualmente, para fazer tinta para pintar redes de pesca. Mulungo conta que na sua localidade, as redes de pesca possuíam cores reluzentes, o que muitas vezes representava um desafio para a pesca, já que o peixe ‘‘desconfiava’’ do brilho das redes e não aproximava, o que levava a baixas no rendimento. O caule da mafurreira era colocado num recipiente com água, durante cerca de três dias, juntamente com as redes de pesca, para dar as mesmas ganhassem uma tonalidade verde, que é comum dentro da água onde se praticava a pesca.

Um outro aspecto levantado pelo idoso é a vertente económica da mafura. Segundo o Sr Mulungo, a compra e venda da mafura não eram praticadas antigamente, pois trata-se de uma especiaria prendada pela natureza, para acompanhar, sobretudo, os indivíduos em momentos de lazer e descontração.

Algumas convenções em torno do consumo da Mafurra:
- Nas regiões do país a norte do rio Save considera-se a Mafura como sendo um alimento para consumo exclusivo de animais, excluindo o homem. É chamada ‘‘Comida de passarinho’’, razão pela qual a Mafurra não é vista da mesma forma como no sul;
- Recomenda-se o consumo da Mafurra momentos antes de se fazer à cama, pois existe a crença de que este alimento sirva de sonífero ou estimulante para o sono.

Esctito por Emanuel Banze e Roberto Inguane para Tsevele

 

O Inhame ou Madumbe é uma planta herbácea da família das aráceas, que produz rizomas tuberosos comestíveis, isto é produz o tubérculo ao qual chamamos pelos mesmos nomes. A literatura aponta que o inhame teve a sua origem na Ásia, concretamente na índia e consumido pelo povo Hindu. Quatro séculos depois, outros povos também começaram a consumir. Foi então que espalhou-se para a América através da África e vem sendo cultivado há mais de 2400 anos na Índia e há mais de 2000 anos no Egipto.

As sociedades africanas são culturalmente crentes da existência de espíritos de antepassados que conduzem, amaldiçoam ou atormentam a vida das pessoas ainda em vida. Curandeiros ou nyangas são guiados por espíritos nas suas acções para a cura de seus doentes. Pessoas alegam terem sido possuídas por espíritos para terem optado por certas práticas, outros ainda alegam sentir como que se envolvendo em acto sexual durante a noite com espíritos. É neste último contexto que se fala de marido da noite.

Marido da noite (ou marido espiritual) é nada mais que um espírito que atormenta a mulher durante a noite, fazendo-a sonhar tendo relações sexuais ou voando. Isto a faz acordar “molhada”, como se realmente tivesse mantido um envolvimento sexual com alguém. Entretanto, falar de marido espiritual é um assunto que gera controvérsias, sobretudo no seio de pessoas que não acreditam na existência de espíritos.

Filipe Guilundo é praticante de medicina tradicional há vinte e sete anos. Ele explica que é um problema que ainda existe, mas é algo que se dava em grande escala na era das gerações antepassadas.

Guilundo explica algumas condições em que uma mulher pode ter “marido da noite”. “Pode se dar quando os pais “entregam” as filhas como moeda de pagamento ao curandeiro pelos serviços de tratamento de alguma enfermidade ou busca pelo sucesso financeiro”. Pode se dar também quando o pai de uma menor faz uma dívida num familiar com posses, e promete pagar com a filha, podendo ser até mesmo uma recém-nascida.

Segundo refere o nosso entrevistado, há casos igualmente que acontecem quando uma tia da família, casada, consulta um praticante de medicina tradicional, geralmente em busca de remédios para vedar seu esposo para não se envolver com outras mulheres, ou amá-la mais. O problema acontece quando ela usa mal o medicamento no marido, e assim “as coisas correm mal pelo mau uso do medicamento, o que causa a morte do marido e até mesmo a da mulher. Assim, o espírito, do marido no caso, vai para a família da mulher, ataca a família, geralmente as sobrinhas”.

Quando é o caso de um médico tradicional que recebe uma criança como pagamento de dívida, a menor é levada para casa deste e cresce lá, até estar em altura de corresponder às exigências matrimoniais para as quais ela fora prometida em sua infância. “É por isso que, geralmente, sobretudo na antiguidade, as casas dos praticantes de medicina tradicional eram repletas de mulheres. Afinal de contas muitas delas eram resultado de pagamentos de dívidas.”

A voz da experiência
Judite (omitimos o segundo nome para proteger a nossa fonte) tem vinte e seis anos, agora casada e mãe de um filho. Ela conta que teve marido da noite na sua adolescência que fez com que a sua vida fosse um tormento.

Segundo menciona, a manifestação do marido espiritual na sua vida começou com alguns problemas de saúde, que se apresentavam em forma de dores debaixo do ventre. Entretanto, quando tentasse resolver o problema no hospital, os médicos não identificavam a origem, pois os exames não davam em nada.

Um dia, Judite esteve envolvida num acidente de carro que aconteceu quando apanhou boleia, indo à escola. Durante o percurso, ela deixou cair o celular que era da sua vizinha. Sobre o episódio conta “Enquanto o carro avançava eu ouvia vozes que me diziam para descer do carro e ir buscar o celular. De repente tudo parou. Eu não conseguia perceber que o carro estava em movimento, com pessoas nele. Então depois ouvi uma voz a dizer salta, salta logo. Eu saltei do carro em movimento. Caí e só lembro de ter acordado no hospital.”

Depois dos tratamentos hospitalares, que implicaram a colocação de gesso, Judite regressou para casa. “ Depois daquele episódio comecei a ter maus sonhos. Eu sonhava a fazer sexo, mas não sabia identificar a pessoa. Eu nunca tinha sentido o prazer do sexo, mas despertava durante a noite a fazer movimentos como se estivesse a me envolver sexualmente com um homem. E eu sentia prazer, e isso me incomodava mais porque eu sentia prazer. E o facto se repetiu por muitas vezes”.

Buscando o livramento
Por causa de um mau estar que Judite tivera, ela e sua mãe foram procurar por um curandeiro. “E lá ele disse-me que eu tinha marido espiritual atribuído pela minha avó, pois ela tinha um marido espiritual que escolheu deixar para mim quando ela morreu”. A nossa entrevistada refere que na verdade já desconfiava, por causa do que sentia e das informações que tinha. Mesmo assim Judite não acreditava, porque, segundo refere, lhe dava medo.

Por causa dos maus sonhos nocturnos, optou por não dormir de noite, mas sim durante o dia. E a noite passava escrevendo o que lhe acontecia. Entretanto, chegou a uma altura em que ela já conseguia dar rosto às pessoas com as quais sonhava à noite a fazer sexo . Eram os seus vizinhos, com os quais se cruzava durante o dia. Por esse motivo, Judite refere que “isso fez com que eu não saudasse mais meus vizinhos, pois alguns deles até eram casados”.

O que implica ter um marido da noite?
As implicações de ter um espírito que possui a mulher durante a noite se dão, segundo refere Filipe Guilundo, quando a mulher cresce, conhece um homem diferente do para qual fora prometida, e se envolve com ele. Assim, quando o “dono” da mulher se apercebe do facto pode enviar os espíritos que o guiam nas suas actividades para a mulher, reivindicando-a como sua. O resultado disso é que “a mulher pode ter problemas no seu envolvimento sexual com o marido, o qual pode não ter satisfação com ela, ou se torna em uma mulher muito chata para com o seu esposo”.

Judite recorda de alguns problemas de saúde que teve aos 12 anos, que se manifestavam através de corrimentos vaginais. Os médicos acreditavam ser resultado de infecções sexualmente transmissíveis que ela tivera contraído. Entretanto, ela conta que na altura nunca tinha mantido relações sexuais. E acredita que isso já acontecia desde então e apenas foi se agravando com o passar do tempo.

Sobre o período que passou atormentada pelo marido espiritual, a nossa entrevistada refere “comecei a ter sérios problemas de auto-estima. Primeiro porque eu não namorava, segundo porque parecia que a minha vida não dava certo, comparando com a vida das minhas amigas.” Ela tinha dificuldades até de desenvolver relacionamentos amorosos com homens, pois estes rejeitavam-na, sempre.

Uma busca por solução
Tradicionalmente, Filipe Guilundo refere que a solução para o problema passa por procurar um praticante de medicina tradicional. Ele é responsável por dirigir a cerimónia de substituição da mulher prometida por cabeça de gado ou aves. A cerimónia implica em “ir à casa do espírito, no caso do curandeiro, com bebidas, panos e valores preparados para apresentar no local. Lá se invocam antepassados, com o objectivo de alertá-los para que não mais se dirijam àquela família, atormentando-os, pois o acto de substituição já fora feito”.

No momento da cerimónia, Filipe Guilundo refere que os familiares tomam banho de raízes. Este banho deverá ser feito igualmente na casa da família, orientado por um praticante de medicina tradicional. Diferentemente do que era antes feito, onde se trocava a mulher possuída pelo espírito por uma mulher menor, agora substitui-se por animais.

E quando a solução não é tradicional?
Para Judite foi diferente. Na busca por tratamento, ela refere que consultou vários médicos tradicionais. “Infelizmente, todo o esforço que fiz na busca por tratamento não deu em nada”. Muito pelo contrário, Judite conta que os sonhos se intensificaram. Começou a sonhar a voar, com cobras, a cair na cova, etc.

A solução do problema apenas ocorreu depois do convite de um colega de escola para visitar a sua igreja. Passou por sessões de aconselhamento, e depois começou a se entregar à igreja, ouvindo a Palavra de Deus, aprendendo a orar, etc. Com cada vez mais envolvimento na igreja e sua decisão de se tornar cristã, os problemas começaram a perder força na sua vida. Até que finalmente “as coisas começaram a mudar. Já passava semanas sem aquelas sensações. Mas foi uma grande luta que envolveu orações com irmãos em Cristo. Depois de muitas provações e tormentos as coisas começaram a melhorar. Não de um dia para o outro”.

Quando olha para trás, Judite percebe que essa é uma luta vencida, pois “a manifestação deles na minha vida já não existe, mas ficaram sequelas. Fiquei com danos psicológicos”.

Escrito por Vanila Amadeu para a Tsevele

Nota: a nossa missão é documentar e partilhar, de forma puramente descritiva, as vivências dos Moçambicanos, evitando o máximo emitir juízos sobre as questões reportadas. Portanto, não legitimamos nem condenamos as várias práticas que aqui partilhamos.

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