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Alvo Ofumane

Alvo Ofumane

As sociedades africanas são culturalmente crentes da existência de espíritos de antepassados que conduzem, amaldiçoam ou atormentam a vida das pessoas ainda em vida. Curandeiros ou nyangas são guiados por espíritos nas suas acções para a cura de seus doentes. Pessoas alegam terem sido possuídas por espíritos para terem optado por certas práticas, outros ainda alegam sentir como que se envolvendo em acto sexual durante a noite com espíritos. É neste último contexto que se fala de marido da noite.

Marido da noite (ou marido espiritual) é nada mais que um espírito que atormenta a mulher durante a noite, fazendo-a sonhar tendo relações sexuais ou voando. Isto a faz acordar “molhada”, como se realmente tivesse mantido um envolvimento sexual com alguém. Entretanto, falar de marido espiritual é um assunto que gera controvérsias, sobretudo no seio de pessoas que não acreditam na existência de espíritos.

Filipe Guilundo é praticante de medicina tradicional há vinte e sete anos. Ele explica que é um problema que ainda existe, mas é algo que se dava em grande escala na era das gerações antepassadas.

Guilundo explica algumas condições em que uma mulher pode ter “marido da noite”. “Pode se dar quando os pais “entregam” as filhas como moeda de pagamento ao curandeiro pelos serviços de tratamento de alguma enfermidade ou busca pelo sucesso financeiro”. Pode se dar também quando o pai de uma menor faz uma dívida num familiar com posses, e promete pagar com a filha, podendo ser até mesmo uma recém-nascida.

Segundo refere o nosso entrevistado, há casos igualmente que acontecem quando uma tia da família, casada, consulta um praticante de medicina tradicional, geralmente em busca de remédios para vedar seu esposo para não se envolver com outras mulheres, ou amá-la mais. O problema acontece quando ela usa mal o medicamento no marido, e assim “as coisas correm mal pelo mau uso do medicamento, o que causa a morte do marido e até mesmo a da mulher. Assim, o espírito, do marido no caso, vai para a família da mulher, ataca a família, geralmente as sobrinhas”.

Quando é o caso de um médico tradicional que recebe uma criança como pagamento de dívida, a menor é levada para casa deste e cresce lá, até estar em altura de corresponder às exigências matrimoniais para as quais ela fora prometida em sua infância. “É por isso que, geralmente, sobretudo na antiguidade, as casas dos praticantes de medicina tradicional eram repletas de mulheres. Afinal de contas muitas delas eram resultado de pagamentos de dívidas.”

A voz da experiência
Judite (omitimos o segundo nome para proteger a nossa fonte) tem vinte e seis anos, agora casada e mãe de um filho. Ela conta que teve marido da noite na sua adolescência que fez com que a sua vida fosse um tormento.

Segundo menciona, a manifestação do marido espiritual na sua vida começou com alguns problemas de saúde, que se apresentavam em forma de dores debaixo do ventre. Entretanto, quando tentasse resolver o problema no hospital, os médicos não identificavam a origem, pois os exames não davam em nada.

Um dia, Judite esteve envolvida num acidente de carro que aconteceu quando apanhou boleia, indo à escola. Durante o percurso, ela deixou cair o celular que era da sua vizinha. Sobre o episódio conta “Enquanto o carro avançava eu ouvia vozes que me diziam para descer do carro e ir buscar o celular. De repente tudo parou. Eu não conseguia perceber que o carro estava em movimento, com pessoas nele. Então depois ouvi uma voz a dizer salta, salta logo. Eu saltei do carro em movimento. Caí e só lembro de ter acordado no hospital.”

Depois dos tratamentos hospitalares, que implicaram a colocação de gesso, Judite regressou para casa. “ Depois daquele episódio comecei a ter maus sonhos. Eu sonhava a fazer sexo, mas não sabia identificar a pessoa. Eu nunca tinha sentido o prazer do sexo, mas despertava durante a noite a fazer movimentos como se estivesse a me envolver sexualmente com um homem. E eu sentia prazer, e isso me incomodava mais porque eu sentia prazer. E o facto se repetiu por muitas vezes”.

Buscando o livramento
Por causa de um mau estar que Judite tivera, ela e sua mãe foram procurar por um curandeiro. “E lá ele disse-me que eu tinha marido espiritual atribuído pela minha avó, pois ela tinha um marido espiritual que escolheu deixar para mim quando ela morreu”. A nossa entrevistada refere que na verdade já desconfiava, por causa do que sentia e das informações que tinha. Mesmo assim Judite não acreditava, porque, segundo refere, lhe dava medo.

Por causa dos maus sonhos nocturnos, optou por não dormir de noite, mas sim durante o dia. E a noite passava escrevendo o que lhe acontecia. Entretanto, chegou a uma altura em que ela já conseguia dar rosto às pessoas com as quais sonhava à noite a fazer sexo . Eram os seus vizinhos, com os quais se cruzava durante o dia. Por esse motivo, Judite refere que “isso fez com que eu não saudasse mais meus vizinhos, pois alguns deles até eram casados”.

O que implica ter um marido da noite?
As implicações de ter um espírito que possui a mulher durante a noite se dão, segundo refere Filipe Guilundo, quando a mulher cresce, conhece um homem diferente do para qual fora prometida, e se envolve com ele. Assim, quando o “dono” da mulher se apercebe do facto pode enviar os espíritos que o guiam nas suas actividades para a mulher, reivindicando-a como sua. O resultado disso é que “a mulher pode ter problemas no seu envolvimento sexual com o marido, o qual pode não ter satisfação com ela, ou se torna em uma mulher muito chata para com o seu esposo”.

Judite recorda de alguns problemas de saúde que teve aos 12 anos, que se manifestavam através de corrimentos vaginais. Os médicos acreditavam ser resultado de infecções sexualmente transmissíveis que ela tivera contraído. Entretanto, ela conta que na altura nunca tinha mantido relações sexuais. E acredita que isso já acontecia desde então e apenas foi se agravando com o passar do tempo.

Sobre o período que passou atormentada pelo marido espiritual, a nossa entrevistada refere “comecei a ter sérios problemas de auto-estima. Primeiro porque eu não namorava, segundo porque parecia que a minha vida não dava certo, comparando com a vida das minhas amigas.” Ela tinha dificuldades até de desenvolver relacionamentos amorosos com homens, pois estes rejeitavam-na, sempre.

Uma busca por solução
Tradicionalmente, Filipe Guilundo refere que a solução para o problema passa por procurar um praticante de medicina tradicional. Ele é responsável por dirigir a cerimónia de substituição da mulher prometida por cabeça de gado ou aves. A cerimónia implica em “ir à casa do espírito, no caso do curandeiro, com bebidas, panos e valores preparados para apresentar no local. Lá se invocam antepassados, com o objectivo de alertá-los para que não mais se dirijam àquela família, atormentando-os, pois o acto de substituição já fora feito”.

No momento da cerimónia, Filipe Guilundo refere que os familiares tomam banho de raízes. Este banho deverá ser feito igualmente na casa da família, orientado por um praticante de medicina tradicional. Diferentemente do que era antes feito, onde se trocava a mulher possuída pelo espírito por uma mulher menor, agora substitui-se por animais.

E quando a solução não é tradicional?
Para Judite foi diferente. Na busca por tratamento, ela refere que consultou vários médicos tradicionais. “Infelizmente, todo o esforço que fiz na busca por tratamento não deu em nada”. Muito pelo contrário, Judite conta que os sonhos se intensificaram. Começou a sonhar a voar, com cobras, a cair na cova, etc.

A solução do problema apenas ocorreu depois do convite de um colega de escola para visitar a sua igreja. Passou por sessões de aconselhamento, e depois começou a se entregar à igreja, ouvindo a Palavra de Deus, aprendendo a orar, etc. Com cada vez mais envolvimento na igreja e sua decisão de se tornar cristã, os problemas começaram a perder força na sua vida. Até que finalmente “as coisas começaram a mudar. Já passava semanas sem aquelas sensações. Mas foi uma grande luta que envolveu orações com irmãos em Cristo. Depois de muitas provações e tormentos as coisas começaram a melhorar. Não de um dia para o outro”.

Quando olha para trás, Judite percebe que essa é uma luta vencida, pois “a manifestação deles na minha vida já não existe, mas ficaram sequelas. Fiquei com danos psicológicos”.

Escrito por Vanila Amadeu para a Tsevele

Nota: a nossa missão é documentar e partilhar, de forma puramente descritiva, as vivências dos Moçambicanos, evitando o máximo emitir juízos sobre as questões reportadas. Portanto, não legitimamos nem condenamos as várias práticas que aqui partilhamos.

Xibaba ou xingyandza é um bolo fabricado a partir de mapira, predominantemente produzido e consumido nos distritos central e setentrionais de Massinga, Vilankulo e Inhassoro, e um pouco pelos distritos de Mabote e Funhalouro, todos na província de Inhambane.

É um dos cartões de visita mais emblemáticos e requisitados da Ilha de Moçambique, graças à sua estrutura arquitectónica única. Porém, o que muitos não sabem é que o edifício do actual Tribunal Judicial da Ilha de Moçambique serviu nos seus primeiros anos como a primeira escola primária “oficial” de Moçambique. O mesmo está localizado na Província de Nampula, distrito da Ilha de Moçambique na zona insular, Bairro Museu, Rua Pedro Alvares.

 Remédio de lua é um medicamento tradicional dado à criança nos primeiros meses de vida, pois acredita-se que o mesmo protege o bebé de ataques epilépticos. O nome “remédio de lua” deriva da crença ou do conhecimento de que durante as fases de transição da lua algumas crianças têm ataques epilépticos, que para o seu tratamento usa-se o remédio em questão. A prática é comum na região Sul de Moçambique, que abrange as províncias de Maputo Gaza e Inhambane, mas também verifica-se na região Centro do país.

sexta-feira, 13 agosto 2021 18:47

Cabeça do velho: um monte, vários mitos

Há quatro quilómetros a norte do centro da cidade de Chimoio, na província de Manica, centro de Moçambique, localiza-se mais uma atracção natural de grande importância social e cultural, denominado monte "Cabeça do Velho".

Otheka, phombe ou mukhodo é uma cerveja tradicional produzida e consumida um pouco por todo o país, com pequenas variações da receita, de acordo com a região onde ela é produzida. No norte de Moçambique é designada otheka; no centro do país é chamada phombe, e no sul de Moçambique é conhecida por mukhodo. A bebida é preparada através da fermentação da farinha de mandioca, designada karacata no norte de Moçambique, e da farinha de mapira.

sexta-feira, 06 agosto 2021 12:18

Molina: da singularidade ao status

Molina é um alimento consumido um pouco por todo o país, sobretudo na região sul de Moçambique, local onde mais se produz a farinha de mandioca a tapioca ou rhale, um dos seus principais ingredientes. Outros ingredientes incluem o amendoim seco ou castanha de caju torrados, açúcar e sal ao gosto.

No distrito de Morrumbala província da Zambézia, 230km da cidade Quelimane, uma atracção natural chama atenção dos nativos e dos visitantes, trata-se de uma montanha supostamente com “porta” de acesso ao interior da montanha. A montanha é denominada Txutxi.

Ekharau ou Ekharaua em língua emakhuwa, é o piercing de nariz usado pelas mulheres makhuwas ou muthiana oreras de Nampula, Cabo- Delgado e Niassa, na sua maioria muçulmanas. Considerado um dos adornos mais preciosos e apreciados no seio das mulheres makhuwas, o Ekharau ou Ekharaua é de origem indiana. Foram as mulheres Indianas que pela primeira vez trouxeram os primeiros piercings ou Ekharaus nas zonas litorais do norte de Moçambique, principalmente nas nos distritos costeiros de Angoche e Ilha de Moçambique.

As sociedades Africanas sempre tiveram formas próprias de interpretação dos fenómenos naturais, um conhecimento que deriva de cada grupo etno-linguístico. Embora marginalizado e até diabolizado por vários séculos, a favor de abordagens científicas convencionais eurocentristas ou ocidentais, este conhecimento ainda prevalece em várias comunidades Moçambicanas.

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